quinta-feira, 9 de maio de 2019

O resgate de Camilo




Aconselhado por amigos, tento me exercitar mais que antes. Resolvido a esticar a caminhada, tomei o caminho mais longo, em direção à Bela Vista. Decidi tomar o viaduto Nove de Julho e a rua Maria Paula, para isso.

Eis que avistei uma antiga banca de livros, perto de um dos edifícios Artaxo, quase na esquina com a rua Japurá. Embora estivesse resolvido a não comprar títulos pelos próximos meses, topei com um volume em capa dura, marrom, que me chamou a atenção por um pedaço de papel com o valor: R$ 20,00 (ou U$ 4,50, caso o internauta seja do exterior).

Acionei o vendedor, que estava a organizar livros no alto da escada, que me perguntou se seria eu aquele que teria levado o outro volume da Obra Seleta. Respondi que não. Ele logo desceu, destrancou a vitrine e me estendeu o livro. O volume vinha morno, exposto que estava ao sol.

Folheei o índice. Logo topei com o ensaio do Jacinto Prado Coelho e as novelas camilianas que sempre quisera ler (Vinte Horas na Liteira, A Doida do Candal etc). Não tive dúvida: tinha o valor à mão. Estendi a cédula ao vendedor, que pareceu muito satisfeito com o negócio. De minha parte, tanto ou mais.

Não deixa de ser curioso este resgate metonímico de Camilo. Não é sempre que podemos desempenhar um livro em capa dura (e em bom estado de conservação), protegendo-o das intempéries climáticas e das trevas do embrutecimento, que voltaram a assolar esta neocolônia dos EUA, em nome do “bem”, da “ordem” e do pseudo patriotismo.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Emoção de Grau


Colação de Grau? Não tem jeito. Sai semestre, entra semestre, este professor exercita severo autocontrole para não desaguar em público. E sempre escapa algo... Desta feita, o fenômeno começou com o concerto de Brahms, performado com maestria por quatro musicistas da Escola de Comunicações e Artes. Voltou a acontecer enquanto era exibido o vídeo institucional (a que já assisti algumas vezes!), ou quando o Diretor da unidade, a Presidenta da CG e a aluna, porta-voz dos discentes, discursaram e/ou fizeram juramento, acompanhados pelos colegas de curso.
Engana-se quem supuser que isso aconteceu apenas desta vez. Desde que assisti a primeira colação de grau (como docente) em 2005, num colégio do bairro Santo Amaro, o microevento ocorre. E isso não se limita às turmas que conheci; mas a alunos de diversas instituições de ensino, a receber canudos para cursos profissionalizantes, bacharelados e licenciaturas. Hoje foi a vez de meus ex-alunos e/ou ex-orientandos Alice, Beatriz, Isabella, Kaio, Letícia e Marina. Talvez eu devesse grafar seus nomes no plural, a sugerir a representação daqueles que já passaram e aqueles que virão.
Por que isso quase sempre ocorre? Arrisco hipóteses. Primeira: talvez porque me sinta contagiado pela alegria manifesta por estudantes e professores, a compartilhar o certificado de conclusão de curso, sobre o palco. Segunda: porventura eu esteja a associar a colação dos presentes com os momentos que vivi, quando aluno. Terceira: é provável que, a despeito de tudo indicar o contrário, esteja a renovar esperanças em um país que valorize a Educação e proveja, sem maior alarde, a população com saúde, moradia e transporte de qualidade. Quanto à segurança, quero crer, seria consequência de uma sociedade em que houvesse menor concentração de renda e assimetria entre as classes, sejam elas identificadas por cifras, letras ou categorias.
Haveria ainda outra possibilidade a explicar o pequeno grande fenômeno. Digamos, a minha ligação desde pequeno com a música, especialmente as aulas de piano com Clarice Falcon, dos 11 aos 15 anos. E ainda esta justificativa: acabáramos de receber a notícia de que houvera corte geral de bolsas do Capes, de Mestrado e Doutorado, no país. O que restará a uma terra cujos mandatários desacreditam o papel do ensino, desprezam a efetiva transformação dos alunos (e de seus professores) e sugerem que a lógica prevalecente seja a sanha do lucro, o descaso com as ciências, as artes, as linguagens, a história e outros saberes?  
Um amigo que fiz na Fatec São Caetano do Sul, com quem dividi inúmeras aulas, bancas e cerimônias para colação de grau, diz que os alunos se tornam nossos afilhados. Quem sabe não será essa a melhor explicação para o extravasamento disfarçado? Uma crença maior no futuro, como se a projetar melhor luz sobre o presente, que anda pesado e nos prostra, adoecidos, como se a capacidade de reenergização não compensasse nem desse conta do desgaste a que corpo e mente são submetidos diariamente.
A essa altura, o transbordamento dos afetos pode parecer algo de menor monta. Mas, não nos enganemos. A necessidade de resistência e mudança será decisiva. E, provavelmente nos levará ainda uma, duas ou cem vezes ao lugar identificado com o cartaz “Reservado”.
Semestre que vem tem mais. Quiçá em melhor cenário. Para todos nós, inclusive os cegos e hipócritas desta primeira hora. 

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Carta aos Orientandos do Futuro

Planeta Terra, 18 de abril de 2019 d.C.


Estimadas(os) Pesquisadoras(es), por ora a circular entre a sala de aula, o corredor, o bandejão, o cepê, o cinusp e as bibliotecas,

Estamos acostumados, na universidade, ou a moldar o trabalho que vocês têm em vista ou a acolher, sem restrições, aquilo que mais desejam estudar. Sempre fui da segunda turma, desde os tempos em que trabalhei na Hotec, na Metodista e na Fatec. Para isso, recorria e recorro a uma das lições do admirável Umberto Eco: estude o que mais deseja; não o que mais convém. Sabemos que, no país do corte de bolsas e da precarização do professor/pesquisador, nem sempre o que mais queremos assegura bolsa etc, o que talvez explique o fato de eu ter convivido com alunas(os) que desenvolviam trabalho em torno de temas que não eram a sua primeira opção. Por isso, e apesar das dificuldades, insisto: estudem o que mais lhe dá prazer; ou, em termos menos eufóricos, o que mais desperta curiosidade; o que as/os movem para além das palavras ordinárias, das fakenews, do senso comum, dos dogmatismos, do egoísmo que começa em casa e implica desprezar os outros. E não se esqueça: a solidariedade é a prova dos nove, parodiando Oswald.

Desta vez, porém, queria lhes dizer o que me encanta(ria) mais, quando no papel de orientador -- seja de TCCs, seja de ICs, seja de pesquisas em Pós-Graduação: 1. qualquer obra, autor(a) ou tema relacionado ao período "colonial" da "história do Brasil"; 2. qualquer escritor(a) do século XIX que permitisse ampliar o cânone cada vez mais restrito, em torno de Machado; 3. poetas do período "pré-modernista", não só os de São Paulo, Minas ou Rio; 4. Drummond; 5. João Cabral; 6. Leminski; 7. de Dalton Trevisan a Patrícia Melo; 8. José Saramago e Valter Hugo Mãe; 9. Lídia Jorge (por enquanto, A costa dos murmúrios); 10. Poetas surrealistas, em diálogo com Marx, Freud e a música anti-clássica (embora erudita); 11. Estética do romance policial (em particular, Agatha Christie); 12. tratados de retórica, poética, etiqueta e cortesania; 13. teorias sobre a história (em voga desde o século XIX, na Alemanha, de Gervinus a Koselleck); 14. reedições de "clássicos" esquecidos (encontráveis em arquivos físicos ou hemerotecas); 15. re-traduções de obras ainda conhecidas; 16. ensaios "escolares" de Lacan (p. ex. "Os nomes do pai" ou "O mito individual do neurótico"); 17. idem, em relação a Roland Barthes (quase tudo o que ele escreveu) e Michel Foucault ("A ordem do discurso", "História da Loucura", "Vigiar e Punir", "Os Anormais" e "As palavras e as coisas") ; 18. proposição de métodos, p. ex., um TCC (ou Mestrado) que ensinasse a elaborar TCCs (ou Mestrados); 19. história da educação brasileira, desde os Colégios Jesuítas até o Colégio Pedro II e, claro, o Largo São Franciso; 20. O pensamento de Herbert Marcuse; 21. O papel da Escola de Frankfurt; 22. A Estética da Recepção, segundo Jauss, Iser (e também Brunel); 23. O estudo sobre simbologias, emblemas, cores, formas, sons durante o chamado Antigo Regime; 24. Os rapapés da corte francesa e portuguesa; 25. O teor das teses resultantes do Concílio de Trento (1545-1563), contrarreformista; 26. A estética do romance distópico; 27. A educação libertária versus o dogmatismo (como se vê em Paulo Freire e Emília Ferreiro); 28. A construção de Deus (e de Lúcifer), desde Roma, em sua fase decadente; 29. A democracia como farsa, segundo os EUA; 30. Revisão das visões sobre o Brasil, de Gilberto Freyre a Roberto da Matta; 31. Adaptação de obras "clássicas" para os quadrinhos e/ou o cinema.

Não sei se a lista ajuda a pensar em algo; mas me ocorreu sugerir esses itens, como pistas de que tenho prazer em orientar qualquer trabalho, sob duas condições: desejo do pesquisador em descobrir/aprender/compartilhar (humildade) e honestidade itelecutal (ou seja, emular; mas não plagiar).

Muy humildemente, despeço-me.

Jean Pierre Chauvin.



domingo, 20 de janeiro de 2019

Arte de Conversar

"[...] aquele que fala, se deseja fazê-lo de modo que seja amado, e que seja tido por boa companhia, não deve pensar senão, pelo menos no que depender dele, em tornar felizes aqueles que o escutam" (Antoine Gombaud)*


Escute-me, por obséquio. 
A senhora, o senhor internauta já terão passado por situação parecida. Foi lá rever aquela(e) amiga(o) com quem, por alguma razão aparentemente inexplicável, não estabelecia contato pessoal há meses, às vezes, anos. 
Combina, recombina, cancela compromissos, afinal, cultivar amizades é tão importante quanto estudar e trabalhar etc. Agendou-se o reencontro!
Marcou o café, a cerveja, a balada, tanto faz. O diálogo começa animado: "puxa, ah quanto tempo, hein?" ou o imprescindível "pois é! quem é vivo sempre aparece!" e outras celebrações desse quilate. Eis que, decorridos uns doze ou treze minutos, o que prometia ser uma conversa a celebrar a amizade transforma-se em monólogo de ostentação de saberes, poderes e discordâncias.
Há muitos anos, li em algum lugar que esse tipo de relacionamento poderia ser classificado como "vampirismo". Os entendidos queriam dizer que existem criaturas especializadas em monopolizar o discurso, enquanto ele durar. 
Em geral, são pessoas que, devido a alguma insegurança ou desencaixe, precisam rafirmar sua autoridade através de uma fala ininterrupta em que fingem saber de tudo e que, de tempos em tempos, incomodadas com a nossa singela interrupção, de doze ou treze segundos, reassumem o tema (que só interessa a elas), explicitando o fato de terem deixado algo para trás, por responsabilidade nossa: "Retomando o que EU dizia"...
É mais ou menos nesse instante que você se dá conta de que o hiato de tempo não era gratuito. Agora aquela ficha caiu: "sim, sim; agora me recordo por que fazia um ano e dois meses que não encontrava Fulano".
Poderíamos sugerir que tais criaturas visitassem um(a) terapeuta, para conseguirem entender por que procedem de forma tão autocentrada. Outra opção seria sugerir a consulta às pesquisas em torno dos "textos orais", coordenadas por Dino Preti e companhia, especialmente o que se refere aos "turnos de fala". Também seria oportuno recomendar a leitura das Artes de Conversação, que circularam na Europa entre os séculos XVI e XVIII. Na falta desses materiais, lembre a lição de Paulo Freire, destinada especialmente aos Educadores: melhor fala quem melhor ouve.
Mas, pensando melhor, e a julgar pelos traços de narcisismo e autoritarismo que transparecem na fala dessas criaturas, serão sugestões inúteis. O preferível, mesmo, será conviver com pessoas que já aprenderam que dialogar não tem o prefixo "di" por questão de enfeite, pois o assunto não se restringe ao plano do significante.


*"Do Espírito da Conversação". In: PÉCORA, Alcir (org.). A Arte de Conversar: Morellet e Outros. Trad. Edmir Missio; Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 5. 

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Brevíssima Dissertação sobre a Escada

[Ao som de Echo and the Bunnymen]

Que me conste, raros terão sido os intrépidos a tecer considerações sobre a escada. Para fazê-lo, pretendo cumprir alguns preceitos da melhor retórica e recorrer ao método expositivo mais cartesiano possível.
Especificarei a que espécie de escada me refiro. Direi do que ela se compõe. Aludirei a episódios literários em que ela cumpre papel relevante. Inventariarei lembranças. Sugerirei que ações ela antecipa, prolonga e permite.
Definição. Escada – substantivo feminino (em língua portuguesa), do latim, scalata. Conjunto de degraus que nos leva ou traz de um patamar, nível ou andar a outro. O étimo nos remete a um verbo bem conhecido: escalar (quase ninguém pensa no antônimo: descer, retroceder são ações interditadas em nossa sociedade pós-moderna, pós-racional e tudo menos pós-ideológica).
Delimitação. Aqui, refiro-me não à escada portátil, dessas de ferro, madeira ou alumínio; mas às escadas que, somadas (e quando altivas) chamam-se escadaria. Escondem-se por detrás das saídas de emergência de residências verticalizadas, centros comerciais, edifícios que se esqueceram de oferecer mais velocidade e vaga nos elevadores (repare o leitor em como não admitimos o sentido contrário do verbo “elevar”; nem mesmo quem, pelo elevador, desce).
Estrutura. Diversos são os materiais de que se compõe a escada: madeira, metal, alvenaria. Alteram-se as formas e cores. Mudam-se os ruídos que os pés (ou as mãos, caso plante bananeiras durante o trajeto) fazem. A de metal, em notas brilhantes. A de madeira, em tonalidade seca, abreviada. A de alvenaria, a depender do revestimento (borracha, piso frio ou carpete de madeira), a calar a voz e amplificar a dicção do solado (Toc-toc; Toc-toc – quase todo mundo acentua o andar num dos pés).
Na literatura, ela pode desempenhar função não desprovida de importância. Penso na cena inicial de O Primo Basílio, em que Jorge pergunta a Luísa se já não desceria, para atenderem ao compromisso social. Mulher nas alturas. Homem no piso inferior. Céu e inferno? Céu e terra? Idealização feminina? Só se for do avesso: bem sabemos que a instituição casamento será tripudiada pelo narrador em terceira pessoa e a esposa descerá, descerá, descerá, até o fim da trama.
Esaú e Jacó, em que o Custódio vai em busca de seu ilustre vizinho de frente, o Conselheiro Aires. O criado do distinto sujeito está no patamar; o pequeno comerciante está no pó (ou na lama) da rua, único elemento em comum. Entre eles, a escada, a reforçar a assimetria social, as posições que um e outro ocupam na rígida hierarquia cortesã – arremedo das modas importadas da França. Para além do patamar, onde está o criado, outro nível (o doméstico) se desenha: o conselheiro Marcondes Aires fuma, devagarinho, o seu charuto da melhor procedência.
Performance. A escada que alonga o vestido (poderosa metonímia, incertos momentos). O som de quem apressa os passos a subir ou os retarda, ao descer. No aeroporto, o corrimão é um monstro com centenas de olhos de metal. Frios e redondos, decorosos em relação às formas arrendondadas – lá está a sanca em borda e reborda, ao alto, cheia de lâmpadas de variado tamanho. Não convém acelerar o andar, o andor, enquanto se ascende ou descende, ainda que estejamos prestes a nos despedir ou na iminência de reencontrar.
Considerações Finais. Como se disse, escada sugere nível ou desnível, local de transição (entre andares, entre estantes, entre seções da loja de departamento, entre balcão e mezanino etc). Ela pode nos ensinar a refrear emoções e passos, especialmente quando já avistamos quem mais quiséramos ver. Ainda que nos percebamos diminutos, dado o caráter apassionador do que se sente, por instantes a escada nos eleva para além de dois: visão onírica, como se, durante quinze degraus e meio minuto, elevados ao terceiro patamar, nível ou esfera, detivéssemos algum controle e rara razão sobre a (i)lógica dos afetos.

domingo, 30 de setembro de 2018

Reencontro com Theodor Adorno

Desde que me tornei professor, domingo tem sido dia de preparar aula. Amanhã, ao discorrer sobre História do Cerco de Lisboa (publicado por José Saramago em 1989) discutirei "Ensaio como Forma", de Theodor Adorno. 
Supondo que os estudantes façam um esforço para ler e anotar o capítulo, possivelmente repararão que se trata de um meta-ensaio, já que Adorno recorre ao gênero ensaístico para melhor dizer sobre o objeto de que (não) trata.
Salvo engano, Adorno desmontou a ideia de pureza que se atribuía a determinados gêneros, supostamente brotados da modalidade praticada na academia. Ele desconfiava que a pretensão da ciência à totalidade e o caráter supostamente estável dos conceitos tenham sido perturbados pela forma instável do ensaio -- modalidade que questiona a si mesma e deixa perguntas em aberto, especialmente para o leitor sensível e atento.
Subestimado pelos cientistas "do particular", por se tratar de uma forma, por assim dizer, flutuante, o ensaio também não ocupa lugar confortável entre os sujeitos que desprezam a academia e veem nele uma soma de abstrações que guardam pouco ou nenhum vínculo com a "vida real". 
Tudo isso, é claro, pode ser relacionado com o romance de José, aquele: se a escrita da história estiver em falta com a verdade absoluta, decerto é na linguagem que está o seu segredo. O ensaio, sugeria Adorno, era irmão da literatura. Creio que o mesmo se possa dizer sobre a superação dos dogmas por intermédio da história. E da literatura.
Em José Saramago, essa síntese entre o registro e a sua sua superação ocorreu diversas vezes. Ele se valia da forma ensaística para questionar e driblar o método imposto pelos manuais de história. Algo que deveria nos colocar para pensar, desde que que avistavamos o título dado ao romance.
Quase nada de "História", se a considerássemos como sucessão de eventos, com vistas a enaltecer pequenas-grandes decisões. É que História do Cerco de Lisboa é um ensaio que faz da negação do texto plataforma para repensar o protagonismo dos "grandes", segundo a historiografia oficial.
Sob essa perspectiva, é romance às apalpadelas, que desestabiliza o lugar da literatura, em si, e de certos manuais de história.
Raimundo Benvindo da Siva é sujeito de hábitos simples e ousadia. Para começar, desconfia do manual que tem por tarefa revisar. Em seguida, acrescenta um "não" a um evento que, em tese, levara Portugal a empenhar novos métodos contra os mouros.
Talvez não seja ousadia dizer que o ensaio, feito seu romance, propõe assertivas a partir de negativas.

domingo, 12 de agosto de 2018

Dia Dele

Nascido em fevereiro de 1973, meses depois os pais tiveram que escutar o médico dizer que a expectativa de vida do filho era de 3, 4 anos. A razão: C.I.V. (Comunicação Intraventricular). 
Por sorte, já haviam sido realizadas cirurgias corretivas, no Brasil, àquela altura. Deste modo, com um ano e sete meses, o primogênito foi operado pela equipe do Dr. Adib Jatene, no Hospital da Beneficência Portuguesa. 
A mãe ainda relembra quão difícil era se despedir do pequenino, a acenar do colo da enfermeira, a cada vez que os pais o visitavam no hospital, durante os trinta dias de recuperação, após a cirurgia. 
Sei que ele cresceu. E que, durante a infância, respondia meio tímida, meio heroicamente -- quando perguntavam os amigos: "tem cicatriz? deixa ver" -- Sim, sim, e mostrava o tronco afetando naturalidade de quem superou a morte.
Quando o adolescente foi pai, aos dezenove, pensou que a filha também representava a continuidade de sua mirrada dinastia. Coisa para mais se gabar, ora se não! 
Talvez por ser algo congênito, o fato é que o garoto era mais emotivo que as crianças com que brincava. Certa feita, o irmão menor desenhou um menino num pedacico de papel que o pai trouxera. O irmão maior tinha oito anos. Ficou encantando com o amiguinho em contorno azul no papel. Mas o irmão menor, sem perceber a importância que o maior dera, rasgou o papelzinho. Então, o menino grande chorou, chorou, chorou; e seu irmão, reparando a gravidade da situação, desenhou dezenas de bonecos em novos papeluchos. Não serviam: ele queria aquele. Deveria ter alguma feição que o aproximara demasiado da figura em celuloide. 
Coração em que o sangue venoso se mistura ao arterial teria maior pretensão de abrangência do mundo? Os azuis e os vermelhos? Os ricos e os pobres? Os que vencem e os que restam? Os que fogem aos pobres e os que deles se aproximam? As mulheres e os homens? Consciência de sua pequenez no mundo? E de como é necessário ser grande para causas alheias? 
Certo dia, voltava da universidade. Depara com várias ligações da filha, no celular. Não havia almoçado, quando telefonou. Não tinha mais pai: o pai dormira e lá permanecera. Percebeu que ser pai sem pai era responsabilidade final e maior: perder o pai da gente implica virarmos pai em dobro, pai no total.
Onze meses depois, foi aprovado em concurso na universidade onde o pai estivera tantas vezes, para dar-lhe uma carona. Enviou mensagens para amigos e antigos colegas da instituição. Desde então, imagina o que o pai teria dito, como teria reagido: "Ah, oui?!", depois "- Trés bien!", decerto. Passaria a mão grosseiramente sobre a sua cabeça, com sorrisão, proclamando: "Il faut fêter
Talvez já estivesse com uma latinha de cerveja na mão, a chave do carro pendurada no bolso, os cabelos em desalinho e os olhos grandes, feito janela do universo, a repetir o rifão que o menino mais velho e mais novo escutaram desde a infância: "Tu mérite, tu mérite". Era isso o que o pai sempre dizia, quando trazia uma lembrança da rua ou atendia ao capricho do filho mimado, que vivia a pedir carrinhos de ferro, gibis e revistas, durante o almoço.
Mais tarde, foi a época de almoçar em locais de predileção do pai. Pequeno pedido para tamanho homem, sempre disposto e generoso. 
Então percebeu: domingo era, definitivo, dia do pai.