sábado, 7 de novembro de 2020

Prêmio Aberst 2020 ou Um Passeio com Caveira e Lâmina

Em 2019, enviei um conto como forma de participar da coletânea O Melhor do Crime Nacional (publicada ao final daquele ano, pela Luva Editora), organizada por Tito Prates e Vitto Graziano e ilustrada por Carolina Mancini. Um ano depois, incentivado por algumas pessoas, submeti o conto "O Assassinato de Cláudio Manuel da Costa", na categoria Narrativa Curta Policial/Crime. Hoje, após meses de ansiedade, recebi, honrado, o prêmio Lúcia Machado de Almeida.

Fiquei radiante, por vários motivos. Primeiro: por ter sido a primeira vez que escrevi um conto policial com vistas a concorrer a um prêmio literário; segundo: por ter sido apresentado ao romance policial, quando criança, pelos livros de Marcos Rey e Lúcia Machado de Almeida; terceiro: por que leio e releio Agatha Christie desde menino; quarto: por fazer parte da Aberst, entidade que tem reunido autores, até então dispersos; quinto: por que o prêmio incentiva a que eu continue a ler e escrever (sobre) narrativas policiais; sexto: por manter projetos com a Luva Editora, em saudável parceria com Vitto Graziano e Carolina Mancini.

No retorno a este castelo de 51 metros quadrados, embarquei na estação Sumaré, desembarquei na Brigadeiro e desci a avenida a pé, com o troféu personalizado - caveira com uma lâmina espetada -, sob o olhar curioso (ou assustado?) dos transeuntes. Tem sido uma belíssima jornada. E ela não seria possível sem o incentivo e o apoio de Tito Prates, Vitto Graziano, Carolina Mancini e Daiana Rodrigues da Silva - que acompanhou a escrita rabiscada do conto; revisou e deu pitacos na versão digitada, às horas finais do último dia de inscrição para a coletânea, no ano passado... 

Quem disse que não é possível levar literatura policial a sério? 

 




  

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Quanto tempo um livro leva?

Em 2011, logo após a aventura de publicar Pensamentos Crônicos pela editora Patuá, começou (ou teve continuidade) o registro de pseudocrônicas em cadernos, páginas finais de livros etc.

Digo "pseudo" porque é isso o que não são: quando muito, lampejos de ideia; fragmentos de ensaio; textos breves, classificados como crônica ou equivalente nos fóruns em que foram veiculados (a exemplo deste espaço e o portal do GGN, para citar as fontes mais "rentáveis"). 

O processo de escrita, seleção e disposição dos textos se repetiu. 

Assim como no livrinho primeiro ("livrinho", mesmo: 90 páginas, quando muito), fui anotando monólogos interiores; comentários sobre livros; observações sobre gestos (não) praticados pelos terráqueos; cenas da politicagem brasileira-entreguista; e inventando cenas, supostamente verossímeis, também.

Um livro pode levar mais ou menos tempo. É possível escrever um conto breve em um dia (desde que haja ideias e formas de organizá-las); é possível dar forma a um artigo em uma semana; mas, livros concebidos como diários demandam outra temporalidade porque estão impregnados pelo cômputo dos dias. 

Se Pensamentos Crônicos foi tecido aos poucos, entre 2008 e 2011, Crônicas Vorazes se estendeu de 2011 a 2018. A leitora, o leitor que já se leu, sabe que tendemos a ser mega rigorosos conosco, ao reler o que escrevemos anos (ou até meses) antes. 

Não seria diferente com o volume que vem aí. Ele rendeu muitas dúvidas. Houve registros que apaguei sem qualquer hesitação ("que bobagem! que pieguice! que imaturidade! que amenidade!"); houve alguns deletados, mas que retornaram à casa de papel; também houve aqueles submetidos a algum critério possivelmente tão tosco quanto o motivo para preservá-los. Enfim, sete anos de brevíssimos escritos reunidos; outros dois, concedido aos trâmites editoriais.

Certos livros valem mais por aqueles e aquilo(s) que o en-formam. Assim penso sobre a engenhosa arte de Gustavo Piqueira; sobre a aguda apresentação de Eduardo Sinkevisque; sobre as generosas orelhas escritas pela Carmem Negreiros; sobre o sensível texto que vai na quarta capa, a cargo de Francine Weiss Ricieri.

 

  

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Uma trajetória entre "Opiniães"

Entre 2016 e 2019, colaborei quatro vezes com a Opiniães. "Opiniães, ora, opiniães, que será isso?", pergunta o internauta curioso. Opiniães é uma revista que trata do mundo das Letras (Língua e Literatura, para dizer o essencial que nela vai e se discute). Dia desses, a equipe editorial postou uma foto que reúne todas as capas do periódico, que acabou de ser reconhecido como B1, em acordo com a régua da CAPES.
Como nunca liguei muito para rankings ou avaliações, que porventura chancelariam, ou não, uma revista, tive o privilégio de ler e escrever sobre o conto "A guerra", de Estevão Azevedo, em 2015. No número seguinte, tentei falar sobre o lirismo agudo (e obediente aos preceitos retórico-poético-teológico-reinóis) do notável Manuel Botelho de Oliveira. Um pouco depois, ousei criticar o crítico Manuel Bandeira, que fez da amizade com Mário de Andrade ponto de fuga das letras luso-brasileiras -- que ambos rejeitavam quase inteiramente, supondo faltar nelas bom-gosto, clareza e originalidade. 
Nesta semana, saiu o quarto texto que submetera à revista. Nele rediscuto a visão, a meu ver controversa, sobre o romance de José de Alencar, sedimentada nos manuais de literatura brasileira. Creio ser oportuno lembrar que, apesar de os idealistas românticos (e a crítica que aderiu aos seus pressupostos, no início do Oitocentos) negarem o papel da instituição retórica e da arte poética, na prosa e no verso oitocentista, dificilmente se pode objetar para o fato de que os próprios poetas e romancistas, amigos do imperador Pedro II, forjaram convenções anti-convencionais em seu lugar. 
Ao resgatar as circunstâncias relacionadas à reflexão e escrita dos textos para a revista Opiniães, neste período, devo confessar que temia a rejeição de um e outro pelos(as) pareceristas. Desconfio que, ao menos em parte, a publicação deles se deveu à tenacidade e persistência dos alunos que conduzem o periódico. Devo-lhes gratidão e os felicito, porque parecem desconfiar que a crítica literária está sujeita a constantes questionamentos e transformações.
Nesse sentido, Opiniães é mais que um projeto editorial; nomeia um ato de resistência transgressora e saborosa aleivosia. Sorte de todos nós, que não confundimos opinião com argumento, nem dogmatizamos (in)certas perspectivas.





terça-feira, 30 de julho de 2019

Licença para promover um livro de contos detetivescos

Caras e Caros Internautas,

Permitam-me o desplante de lhes estender um convite, a meu ver digno: ajudar na divulgação da campanha para publicação de um livro de contos policiais do qual participo. Trata-se da versão ficcional de um dos crimes que sujam a história da cultura luso-brasileira, que intitulei "O Assassinato de Cláudio Manuel da Costa".
Além do excerto inicial, talvez possa lhes interessar o fato de que o texto foi escrito entre a manhã e a noite de um domingo (dia final para a inscrição e envio do material para a Luva Editora). O conto se liga diretamente aos estudos em que tenho me concentrado nos últimos seis anos: a poesia produzida na América Portuguesa, entre o século XVIII e o XIX, a que os manuais dão o discutível nome de "Arcadismo".
Explico-lhes como a campanha funciona. Trata-se de uma edição colaborativa. Cada um das(os) interessadas(os) contribuiu com uma quantia determinada (há várias opções, no site) e adquire um ou mais exemplares do livro, que terá 18 contos. Dentre os brindes disponíveis, há caderneta, marcador de página etc.
Muito obrigado. 

Vosso humilde criado, J. P. C., aos 30 dias de julho de 2019 d. C., na Pauliceia, Terra Brasilis, Planeta Terra.

Post scriptum: links para o site + uma ilustração do conto:

https://www.catarse.me/crimenacional?ref=ctrse_explore_pgsearch&project_id=99433&project_user_id=1144927
 
https://www.facebook.com/luvaeditora

Arte: Carolina Mancini
 
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quinta-feira, 9 de maio de 2019

O resgate de Camilo




Aconselhado por amigos, tento me exercitar mais que antes. Resolvido a esticar a caminhada, tomei o caminho mais longo, em direção à Bela Vista. Decidi tomar o viaduto Nove de Julho e a rua Maria Paula, para isso.

Eis que avistei uma antiga banca de livros, perto de um dos edifícios Artaxo, quase na esquina com a rua Japurá. Embora estivesse resolvido a não comprar títulos pelos próximos meses, topei com um volume em capa dura, marrom, que me chamou a atenção por um pedaço de papel com o valor: R$ 20,00 (ou U$ 4,50, caso o internauta seja do exterior).

Acionei o vendedor, que estava a organizar livros no alto da escada, que me perguntou se seria eu aquele que teria levado o outro volume da Obra Seleta. Respondi que não. Ele logo desceu, destrancou a vitrine e me estendeu o livro. O volume vinha morno, exposto que estava ao sol.

Folheei o índice. Logo topei com o ensaio do Jacinto Prado Coelho e as novelas camilianas que sempre quisera ler (Vinte Horas na Liteira, A Doida do Candal etc). Não tive dúvida: tinha o valor à mão. Estendi a cédula ao vendedor, que pareceu muito satisfeito com o negócio. De minha parte, tanto ou mais.

Não deixa de ser curioso este resgate metonímico de Camilo. Não é sempre que podemos desempenhar um livro em capa dura (e em bom estado de conservação), protegendo-o das intempéries climáticas e das trevas do embrutecimento, que voltaram a assolar esta neocolônia dos EUA, em nome do “bem”, da “ordem” e do pseudo patriotismo.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Emoção de Grau


Colação de Grau? Não tem jeito. Sai semestre, entra semestre, este professor exercita severo autocontrole para não desaguar em público. E sempre escapa algo... Desta feita, o fenômeno começou com o concerto de Brahms, performado com maestria por quatro musicistas da Escola de Comunicações e Artes. Voltou a acontecer enquanto era exibido o vídeo institucional (a que já assisti algumas vezes!), ou quando o Diretor da unidade, a Presidenta da CG e a aluna, porta-voz dos discentes, discursaram e/ou fizeram juramento, acompanhados pelos colegas de curso.
Engana-se quem supuser que isso aconteceu apenas desta vez. Desde que assisti a primeira colação de grau (como docente) em 2005, num colégio do bairro Santo Amaro, o microevento ocorre. E isso não se limita às turmas que conheci; mas a alunos de diversas instituições de ensino, a receber canudos para cursos profissionalizantes, bacharelados e licenciaturas. Hoje foi a vez de meus ex-alunos e/ou ex-orientandos Alice, Beatriz, Isabella, Kaio, Letícia e Marina. Talvez eu devesse grafar seus nomes no plural, a sugerir a representação daqueles que já passaram e aqueles que virão.
Por que isso quase sempre ocorre? Arrisco hipóteses. Primeira: talvez porque me sinta contagiado pela alegria manifesta por estudantes e professores, a compartilhar o certificado de conclusão de curso, sobre o palco. Segunda: porventura eu esteja a associar a colação dos presentes com os momentos que vivi, quando aluno. Terceira: é provável que, a despeito de tudo indicar o contrário, esteja a renovar esperanças em um país que valorize a Educação e proveja, sem maior alarde, a população com saúde, moradia e transporte de qualidade. Quanto à segurança, quero crer, seria consequência de uma sociedade em que houvesse menor concentração de renda e assimetria entre as classes, sejam elas identificadas por cifras, letras ou categorias.
Haveria ainda outra possibilidade a explicar o pequeno grande fenômeno. Digamos, a minha ligação desde pequeno com a música, especialmente as aulas de piano com Clarice Falcon, dos 11 aos 15 anos. E ainda esta justificativa: acabáramos de receber a notícia de que houvera corte geral de bolsas do Capes, de Mestrado e Doutorado, no país. O que restará a uma terra cujos mandatários desacreditam o papel do ensino, desprezam a efetiva transformação dos alunos (e de seus professores) e sugerem que a lógica prevalecente seja a sanha do lucro, o descaso com as ciências, as artes, as linguagens, a história e outros saberes?  
Um amigo que fiz na Fatec São Caetano do Sul, com quem dividi inúmeras aulas, bancas e cerimônias para colação de grau, diz que os alunos se tornam nossos afilhados. Quem sabe não será essa a melhor explicação para o extravasamento disfarçado? Uma crença maior no futuro, como se a projetar melhor luz sobre o presente, que anda pesado e nos prostra, adoecidos, como se a capacidade de reenergização não compensasse nem desse conta do desgaste a que corpo e mente são submetidos diariamente.
A essa altura, o transbordamento dos afetos pode parecer algo de menor monta. Mas, não nos enganemos. A necessidade de resistência e mudança será decisiva. E, provavelmente nos levará ainda uma, duas ou cem vezes ao lugar identificado com o cartaz “Reservado”.
Semestre que vem tem mais. Quiçá em melhor cenário. Para todos nós, inclusive os cegos e hipócritas desta primeira hora. 

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Carta aos Orientandos do Futuro

Planeta Terra, 18 de abril de 2019 d.C.


Estimadas(os) Pesquisadoras(es), por ora a circular entre a sala de aula, o corredor, o bandejão, o cepê, o cinusp e as bibliotecas,

Estamos acostumados, na universidade, ou a moldar o trabalho que vocês têm em vista ou a acolher, sem restrições, aquilo que mais desejam estudar. Sempre fui da segunda turma, desde os tempos em que trabalhei na Hotec, na Metodista e na Fatec. Para isso, recorria e recorro a uma das lições do admirável Umberto Eco: estude o que mais deseja; não o que mais convém. Sabemos que, no país do corte de bolsas e da precarização do professor/pesquisador, nem sempre o que mais queremos assegura bolsa etc, o que talvez explique o fato de eu ter convivido com alunas(os) que desenvolviam trabalho em torno de temas que não eram a sua primeira opção. Por isso, e apesar das dificuldades, insisto: estudem o que mais lhe dá prazer; ou, em termos menos eufóricos, o que mais desperta curiosidade; o que as/os movem para além das palavras ordinárias, das fakenews, do senso comum, dos dogmatismos, do egoísmo que começa em casa e implica desprezar os outros. E não se esqueça: a solidariedade é a prova dos nove, parodiando Oswald.

Desta vez, porém, queria lhes dizer o que me encanta(ria) mais, quando no papel de orientador -- seja de TCCs, seja de ICs, seja de pesquisas em Pós-Graduação: 1. qualquer obra, autor(a) ou tema relacionado ao período "colonial" da "história do Brasil"; 2. qualquer escritor(a) do século XIX que permitisse ampliar o cânone cada vez mais restrito, em torno de Machado; 3. poetas do período "pré-modernista", não só os de São Paulo, Minas ou Rio; 4. Drummond; 5. João Cabral; 6. Leminski; 7. de Dalton Trevisan a Patrícia Melo; 8. José Saramago e Valter Hugo Mãe; 9. Lídia Jorge (por enquanto, A costa dos murmúrios); 10. Poetas surrealistas, em diálogo com Marx, Freud e a música anti-clássica (embora erudita); 11. Estética do romance policial (em particular, Agatha Christie); 12. tratados de retórica, poética, etiqueta e cortesania; 13. teorias sobre a história (em voga desde o século XIX, na Alemanha, de Gervinus a Koselleck); 14. reedições de "clássicos" esquecidos (encontráveis em arquivos físicos ou hemerotecas); 15. re-traduções de obras ainda conhecidas; 16. ensaios "escolares" de Lacan (p. ex. "Os nomes do pai" ou "O mito individual do neurótico"); 17. idem, em relação a Roland Barthes (quase tudo o que ele escreveu) e Michel Foucault ("A ordem do discurso", "História da Loucura", "Vigiar e Punir", "Os Anormais" e "As palavras e as coisas") ; 18. proposição de métodos, p. ex., um TCC (ou Mestrado) que ensinasse a elaborar TCCs (ou Mestrados); 19. história da educação brasileira, desde os Colégios Jesuítas até o Colégio Pedro II e, claro, o Largo São Franciso; 20. O pensamento de Herbert Marcuse; 21. O papel da Escola de Frankfurt; 22. A Estética da Recepção, segundo Jauss, Iser (e também Brunel); 23. O estudo sobre simbologias, emblemas, cores, formas, sons durante o chamado Antigo Regime; 24. Os rapapés da corte francesa e portuguesa; 25. O teor das teses resultantes do Concílio de Trento (1545-1563), contrarreformista; 26. A estética do romance distópico; 27. A educação libertária versus o dogmatismo (como se vê em Paulo Freire e Emília Ferreiro); 28. A construção de Deus (e de Lúcifer), desde Roma, em sua fase decadente; 29. A democracia como farsa, segundo os EUA; 30. Revisão das visões sobre o Brasil, de Gilberto Freyre a Roberto da Matta; 31. Adaptação de obras "clássicas" para os quadrinhos e/ou o cinema.

Não sei se a lista ajuda a pensar em algo; mas me ocorreu sugerir esses itens, como pistas de que tenho prazer em orientar qualquer trabalho, sob duas condições: desejo do pesquisador em descobrir/aprender/compartilhar (humildade) e honestidade itelecutal (ou seja, emular; mas não plagiar).

Muy humildemente, despeço-me.

Jean Pierre Chauvin.