sábado, 27 de março de 2021

Da Arte de (Des)orientar Alunos-Clientes

Professor também aprende. Máxima que se encontra na prosa encantatória de Guimarães Rosa, nos ensaios libertários de Paulo Freire, na tese emancipatória de Jacques Rancière.

Sessenta orientações depois, afirmo, categoricamente, que há duas modalidades de orientandos: 1. Aqueles empenhados antes e durante a pesquisa; 2. os que se concentram no "antes" e desaparecem "durante". O saldo comum é que, encerrada a banca com orientador e professores convidados, quase todas(os) desaparecem. Compreende-se: o vínculo professor-aluno é pouco mais que circunstancial.

A pandemia e os desgovernos desta republiqueta podem afetar os estudantes e comprometer o seu rendimento? É claro que sim. Do mesmo modo que esses e outros fatores interferem no trabalho responsável de quem os orienta. 

Qual a importância de quem chegou primeiro ao planeta e atua como docente? No Brasil, suspeito que pouca.

Além disso, como estamos na era do clientelismo, em certas horas dá vontade de pedir às(aos) ex-orientandas(os) que declarem se a gente presta para orientar ou não. Supondo que sim, com o perdão da imodéstia, o que explica o misterioso desaparecimento das criaturas que nos "escolheram"?

Aprendizado que fica? Orientar cada vez menos alunas(os), pois certamente não sou a única via para a obtenção do diploma. Quanto à busca pelo conhecimento, ora, ora: é sério que alguém ainda se importa com isso?

quarta-feira, 24 de março de 2021

O que fazer com as notas de caderno

Completei, há instantes, a leitura do Último Caderno de Lanzarote (publicado em 2018). Fazia algum tempo que não lia, linha por linha, algo de José Saramago. "Algo", entenda-se: lúcido, denso e, acima de tudo, coerente com a concepção de um sujeito que não aceitava as capitulações que levam o nome de "social democracia" ou "terceira via".

Achei que cabia dizer algo mais sobre o que fazer e como proceder com as anotações do caderno (este, com capa amarela, em que há nove páginas escritas sobre aquele Caderno desde ontem à noite). Após manuscrever, passei à segunda operação: revisitar o livro, marcando as páginas a serem revistas, prevendo o momento da escrita. Portanto, após digitar o texto que está a mão, inserirei passagens do volume nos espaços reservados a elas [indicadas assim, no manuscrito: ["Citação"].

O que saíra disso? Possivelmente, uma resenha - ou, para soar menos pretensioso, um convite à leitura. Dentre os vários motivos que justificam a leitura do sexto e Último Caderno de Lanzarote, digo que nele está o escritor todo. Aliás, não se trata de impressionismo deste pseudocronista; o próprio Saramago afirmou que o romancista está no cronista - em longa entrevista que concedeu a Carlos Reis.

Evidentemente, não podemos perder de vista que o Caderno traz uma das personae do escritor. Quero dizer, o homem que registrou seus dias ao longo de um ano, como foi o de 1998, selecionou as notícias, cartas e eventos que lhe pareceram mais relevantes; enquadrou-os segundo sua perspectiva crítica em relação ao país que censurou alguns de seus livros (Memorial do Convento, em Mafra; Evangelho Segundo Jesus Cristo, em Lisboa) e mostrou como a moral portuguesa não impediu que o governo se ajoelhasse para os acordos europeus, desprezando as condições desiguais acentuadas pelo Tratado de Maastricht (1992) - tratado que, dentre outras coisas, protegeu os Mercados (como se o neoliberalismo admitisse as diferenças socioculturais) e desprezou as pessoas (justamente por saber saber que elas são diferentes).      

Uma vez transposta para a página do editor de textos, o que fazer com as notas de caderno? Submetê-las a alguma revista, para avaliação. Talvez a Estudos Saramaguianos, editada nas bandas de cá; porventura a revista sobre Saramago que sai em Portugal. Há de ser em língua portuguesa, faço questão. Diante de um texto sobre este José, faz menos sentido ainda cumprir o que recomendam e mandam as instituições - obcecadas em "internacionalizar" o conhecimento a todo e qualquer custo (quando sabemos, muito bem, que não seriam muitos os interessados a discutir literatura contra mercadoria, ainda mais em inglês).



sábado, 20 de março de 2021

Leitura de Saramago

O Último Caderno de Lanzarote chegou ontem à noite, pelas mãos de um sujeito com a máscara (contra o vírus Covid-19) no queixo. Pediu-me que confirmasse o número do RG, entregou-me o pacote e partiu. Ao interfone, havia se identificado com o nome da empresa de logística (e fiquei a supor que não era um funcionário com direitos; mas uma vítima da terceirização a aportar deveres). Desde que chegou, o exemplar ocupa dois lugares: o espaço que há entre o teclado externo onde melhor digito e a tela do notebook; a metade da mesa da cozinha que dá para a sala.

A primeira curiosidade sobre o livro é contada por Pilar. Trata-se do sexto caderno porque só foi encontrado em 2018, vinte anos após ter sido escrito por Saramago - o que explica o subtítulo: o diário do ano do Nobel. O caderno saiu ainda em 2018, acompanhado por um livro de Ricardo Viel, que recria a atmosfera de felicidade e felicitações em torno do escritor laureado em 1998. Comecei pelo Caderno, que é um misto de livro de crônicas e diário. 

Ainda estou na página 65, 66 (de 300) e já destaquei numerosos registros, especialmente um, feito em 23 de janeiro, onde o diarista/cronista contrapõe dois artigos publicados por filósofos num periódico espanhol naqueles dias. E aqui, tomo a liberdade de transcrever uma das passagens que José, aquele, destacou da brilhante síntese de Augusto Klappenbach, em reposta à premissa equivocada de Rupert de Ventós, "em defesa do pensamento único". Diz o professor argentino-espanhol: "[...] ao contrário do contrato social de Rousseau [...], o mercado goza do privilégio de exercer o poder subtraindo-se por completo à vontade dos cidadãos. As decisões tomam-se à porta fechada e não nos parlamentos; a planificação da economia (a economia é sempre planificada) responde aos interesses de gestores de um poder que ninguém lhes concedeu e que não têm de prestar contas das suas decisões a ninguém. E com a vantagem adicional do anonimato. A diluição do Estado não supõe a abertura de maiores espaços de liberdade, mas sim o deslocamento do poder para zonas cada vez mais opacas" (1).

Dias depois, no Caderno - eu, que estava a ansiar por alguma palavra sobre Todos os Nomes (publicado em 1997) - deparo-me com uma série de leituras públicas da versão espanhola do romance, acompanhadas de impressões perspicazes sobre o livro, o que me encheu com dois sentimentos: o orgulho, por ter "adivinhado" que o escritor diria algo sobre Todos os Nomes; a frustração, por perceber que o pouco que escrevi sobre aquele romance não contemplava aspectos evidentes que deveria ter percebido. Em meu favor, registro que estava tão imerso na obra de Saramago (que leio/releio de 2001 ou 2002 em diante) que não vi necessidade de procurar irmãos literários do Sr. José - o modesto funcionário da Conservatória. Mas, certamente eles existem, como sugeriu Almudena Grandes.  

Em rigor, não convém emitir pareceres sobre livros de que não recobrimos a terça parte; mas a(o) internauta relevará, tendo em vista que isto é um blog e esta pseudocrônica é um amontoado de impressões. De todo modo, o ciberespaço ainda não impede que um professor (sem a competência de Klappenbach), e um diarista virtual, (sem as virtudes de Saramago), aborde questões decisivas -- das ideologias que nos uniformizam aos livros que nos emancipam. Mas não cometerei os erros de antes: anotarei as sugestões de leituras recomendadas pelo diarista e também por aqueles que comentaram a sua obra. 

Pode ser uma imagem de 2 pessoas

 (1) José Saramago. Último Caderno de Lanzarote: o diário do ano do Nobel. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 43.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Antídoto contra o Vírus da Autoajuda

Afora a situação catastrófica que vivenciamos (pelo menos desde 2013) nesta neocolônia, não há muita coisa pior que discursos de autoajuda, replicados em grupos de trabalho que foram criados justamente para combater a ideologia do sucesso-que-só-depende-do-indivíduo.

Arre!

Essas criaturas brotam de todos os cantos e exercitam sua sanha por interação cibernética em qualquer lugar, a despeito de sua incapacidade de autoexame.

Impressiona como o positivo compulsório (descrito por Byung-Chul Han em Agonia do Eros, Sociedade do Cansaço e Sociedade da Transparência) tornou-se uma panaceia moral, quase sempre divorciada da situação concreta que enfrentamos neste território inóspito, tomado de assalto por desgovernantes hipócritas e genocidas sob o aplauso estúpido de suas claques.

Feito o desabafo, eis o anúncio que José do Muro reforçou no coletivo A Prosa de José Saramago, (Facebook) há instantes:

"Saudações às(aos) membros deste grupo. Primeiramente, agradeço pela assiduidade de vocês.
Em segundo lugar, e a fim de evitar qualquer mal-entendido, volto a esclarecer que este fórum não foi criado para reproduzir dogmas, tampouco transcrever ou adaptar fórmulas de coaching, autoajuda e congêneres, eivados de lugar-comum.
Os efetivos leitores de José Saramago sabem que isso seria um contrassenso em relação à sua obra e biografia.
Por sua atenção, obrigado."

Post Scriptum: Caso a leitora, o leitor, queira se arriscar a discutir literatura, história e sociedade com fundamento, está feito o convite para que se associe ao grupo virtual:
https://www.facebook.com/groups/442324542796547

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Dissertação sobre "Ocean Rain"

Hoje chegou um dos CDs mais aguardados por este colecionador. 

O Ocean Rain, do Echo & The Bunnymen, o quarto da banda, lançado em 1984. Afora as músicas mais recorrentes em coletânea ("Silver", "The Killing Moon", "Seven Seas"), não se pode deixar de reparar nas faixas menos conhecidas. Possivelmente graças aos sofisticados arranjos, que dão unidade ao álbum, elas não poderiam constar em outro trabalho do grupo. 

Sim, porque Ocean Rain tem uma sonoridade que combina a energia do rock com a melancolia do pós-punk. Há algo de alegre e soturno, portanto: de um lado, as distorções e solos (alguns, similares) de guitarra; de outro, a voz grave e a "cozinha" harmoniosa, constituída pelas nítidas linhas de baixo e a competente condução da bateria, sob uma camada de cordas e teclados.

Mas Ocean Rain também pode ser pretexto para o que mais importa discutir. Nos últimos anos, tornou-se lugar-comum ridicularizar quem "ainda" escuta/compra CDs. A lógica do streaming tomou conta de tudo.

Não haveria problema algum nisso, desde que a qualidade dos arquivos (comercializados ou não) fosse equivalente à da faixa de um disco em vinil ou em CD. Afora isso, acessar o álbum de uma banda permite ao ouvinte compreender melhor que certos "hits" não nasceram sozinhos: quase sempre dialogam ou contrastam com outras composições do álbum (ou de outros trabalhos do grupo musical). Nem me refiro ao sabor de desvendar detalhes da produção, depositadas no encarte e na segunda capa...

Ocean Rain deveria ser considerado parte de qualquer discografia básica sobre pop rock. Para além das outras obras do Echo & The Bunnymen, o álbum evoca Nick Cave and The Bad Seeds, Siouxsie and The Banshees, The Smiths, Pixies... Também aponta para The Jesus and Mary Chain, algo do Sonic Youth etc., etc., etc.

Infelizes aqueles que confundem elogio à tecnologia com desprezo pela matriz sonora de onde a música saiu; que se julgam mais espertos que os degustadores de álbuns inteiros. Talvez isso aconteça porque a apologia da fragmentação tornou-se um dos grandes sintomas de nosso tempo. 

Eu também poderia comentar porque "The Killing Moon" marcou tanto esta mirrada existência; mas pouparei eventuais internautas das confissões personalíssimas, que podem soar piegas e saudosistas. 

De toda maneira, devo ser um sujeito de sorte por cultivar vinis e CDs (o que não impede recorrer aos clipes avulsos de bandas no YouTube, quando convém).



 

sábado, 16 de janeiro de 2021

Das Relações Assimétricas

Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante (José Saramago)*

 

O senso comum reitera, peito estufado: "há relações assimétricas em todos os tempos e lugares". Assim parece ser: (a)o superior(a) e (a)o subalterno [se preferir, (a)o líder e (a)o colaborador]; o médico e o paciente; o comerciante e o freguês; o banqueiro e o cliente; o desgoverno e o cidadão; o juiz e o réu; a esposa e o amante; o latifundiário e o índio.... 

A questão é que, se aceitarmos que as coisas se repetirão desde os Jardins da Babilônia, há cinco mil anos, até Washington, desde o final do século XX, nosso comportamento será o de criaturas resignadas frente as "injustiças que sempre houve, sempre haverá". 

Não é dessa forma que procede o sujeito solidário e crítico, capaz de conceber outra humanidade. Justamente por ter noções de história, antropologia, cultura etc., ele poderá estabelecer contraposições ao lugar-comum. 

Sim, eu sei. Vivemos no Brasil, terra dos brutos, terra de qualquer um, menos nossa. Mas, mesmo nesta neocolônia, pasmem, há quem pense diferente. Que digo? Há quem pense. José de Alencar inventou Aurélia; Machado de Assis forjou Capitu; pelo menos metade de Oswald de Andrade foi Pagu; Guimarães Rosa inventou Diadorim; Clarice Lispector materializou Joana). 

Também há quem sinta. E, no terreno instável dos afetos, sentir e pensar nem sempre estendem as mãos um ao outro; menos ainda que o supostos equilíbrio resulte em uma percepção ajustada, aclimatada, inteira de si e da pessoa com que se convive. [Repare nos relatórios que as(o) confidentes fazem para que todos no vagão escutem: "daí ela disse, daí ele disse", em looping, quase sempre para evitar o silêncio e preencher vazios de quem não lida bem som as pausas na conversação. Invariavelmente, essas cenas terminam com a "vitória" de um(a) sobre o(a) outro(a)].

O problema de supor que não haja outro modo de se relacionar intimamente está em transferir as assimetrias do mundo corporativo, sanitário, jurídico, militar, político ou comercial para o pequeno grande reino dos vaidosos afetos pessoais. É sintomático que o dialeto amoroso esteja contagiado pela lógica do açougue: "a fila anda", "tô na pista", "pra frente é que se anda" etc.  

Talvez por isso, seja quase confortável repetir que há os que sofrem demais e os que sentem de menos.  

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*Discurso do recebimento do Prêmio Nobel, em 10 de dezembro de 1998. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq12129831.htm - Acesso em 16 de janeiro de 2021.       

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Paráfrase de um poema de Bertolt Brecht

 

Da primeira vez, alvejaram uma criança que retornava da escola.
Não dei importância: "isso só acontece nas comunidades do Rio".
 
Da segunda vez, um idoso não resistiu e desfaleceu sobre a calçada.
Não me importei: "isso só acontece em cidades mal administradas".
 
Da terceira vez, uma ala do hospital morreu por falta de oxigênio. 
Então me enfezei contra a oferta de ajuda da Venezuela a Manaus.
 
(Jean Pierre Chauvin, 15 de janeiro de 2021)