terça-feira, 20 de novembro de 2018

Brevíssima Dissertação sobre a Escada

[Ao som de Echo and the Bunnymen]

Que me conste, raros terão sido os intrépidos a tecer considerações sobre a escada. Para fazê-lo, pretendo cumprir alguns preceitos da melhor retórica e recorrer ao método expositivo mais cartesiano possível.
Especificarei a que espécie de escada me refiro. Direi do que ela se compõe. Aludirei a episódios literários em que ela cumpre papel relevante. Inventariarei lembranças. Sugerirei que ações ela antecipa, prolonga e permite.
Definição. Escada – substantivo feminino (em língua portuguesa), do latim, scalata. Conjunto de degraus que nos leva ou traz de um patamar, nível ou andar a outro. O étimo nos remete a um verbo bem conhecido: escalar (quase ninguém pensa no antônimo: descer, retroceder são ações interditadas em nossa sociedade pós-moderna, pós-racional e tudo menos pós-ideológica).
Delimitação. Aqui, refiro-me não à escada portátil, dessas de ferro, madeira ou alumínio; mas às escadas que, somadas (e quando altivas) chamam-se escadaria. Escondem-se por detrás das saídas de emergência de residências verticalizadas, centros comerciais, edifícios que se esqueceram de oferecer mais velocidade e vaga nos elevadores (repare o leitor em como não admitimos o sentido contrário do verbo “elevar”; nem mesmo quem, pelo elevador, desce).
Estrutura. Diversos são os materiais de que se compõe a escada: madeira, metal, alvenaria. Alteram-se as formas e cores. Mudam-se os ruídos que os pés (ou as mãos, caso plante bananeiras durante o trajeto) fazem. A de metal, em notas brilhantes. A de madeira, em tonalidade seca, abreviada. A de alvenaria, a depender do revestimento (borracha, piso frio ou carpete de madeira), a calar a voz e amplificar a dicção do solado (Toc-toc; Toc-toc – quase todo mundo acentua o andar num dos pés).
Na literatura, ela pode desempenhar função não desprovida de importância. Penso na cena inicial de O Primo Basílio, em que Jorge pergunta a Luísa se já não desceria, para atenderem ao compromisso social. Mulher nas alturas. Homem no piso inferior. Céu e inferno? Céu e terra? Idealização feminina? Só se for do avesso: bem sabemos que a instituição casamento será tripudiada pelo narrador em terceira pessoa e a esposa descerá, descerá, descerá, até o fim da trama.
Esaú e Jacó, em que o Custódio vai em busca de seu ilustre vizinho de frente, o Conselheiro Aires. O criado do distinto sujeito está no patamar; o pequeno comerciante está no pó (ou na lama) da rua, único elemento em comum. Entre eles, a escada, a reforçar a assimetria social, as posições que um e outro ocupam na rígida hierarquia cortesã – arremedo das modas importadas da França. Para além do patamar, onde está o criado, outro nível (o doméstico) se desenha: o conselheiro Marcondes Aires fuma, devagarinho, o seu charuto da melhor procedência.
Performance. A escada que alonga o vestido (poderosa metonímia, incertos momentos). O som de quem apressa os passos a subir ou os retarda, ao descer. No aeroporto, o corrimão é um monstro com centenas de olhos de metal. Frios e redondos, decorosos em relação às formas arrendondadas – lá está a sanca em borda e reborda, ao alto, cheia de lâmpadas de variado tamanho. Não convém acelerar o andar, o andor, enquanto se ascende ou descende, ainda que estejamos prestes a nos despedir ou na iminência de reencontrar.
Considerações Finais. Como se disse, escada sugere nível ou desnível, local de transição (entre andares, entre estantes, entre seções da loja de departamento, entre balcão e mezanino etc). Ela pode nos ensinar a refrear emoções e passos, especialmente quando já avistamos quem mais quiséramos ver. Ainda que nos percebamos diminutos, dado o caráter apassionador do que se sente, por instantes a escada nos eleva para além de dois: visão onírica, como se, durante quinze degraus e meio minuto, elevados ao terceiro patamar, nível ou esfera, detivéssemos algum controle e rara razão sobre a (i)lógica dos afetos.

domingo, 30 de setembro de 2018

Reencontro com Theodor Adorno

Desde que me tornei professor, domingo tem sido dia de preparar aula. Amanhã, ao discorrer sobre História do Cerco de Lisboa (publicado por José Saramago em 1989) discutirei "Ensaio como Forma", de Theodor Adorno. 
Supondo que os estudantes façam um esforço para ler e anotar o capítulo, possivelmente repararão que se trata de um meta-ensaio, já que Adorno recorre ao gênero ensaístico para melhor dizer sobre o objeto de que (não) trata.
Salvo engano, Adorno desmontou a ideia de pureza que se atribuía a determinados gêneros, supostamente brotados da modalidade praticada na academia. Ele desconfiava que a pretensão da ciência à totalidade e o caráter supostamente estável dos conceitos tenham sido perturbados pela forma instável do ensaio -- modalidade que questiona a si mesma e deixa perguntas em aberto, especialmente para o leitor sensível e atento.
Subestimado pelos cientistas "do particular", por se tratar de uma forma, por assim dizer, flutuante, o ensaio também não ocupa lugar confortável entre os sujeitos que desprezam a academia e veem nele uma soma de abstrações que guardam pouco ou nenhum vínculo com a "vida real". 
Tudo isso, é claro, pode ser relacionado com o romance de José, aquele: se a escrita da história estiver em falta com a verdade absoluta, decerto é na linguagem que está o seu segredo. O ensaio, sugeria Adorno, era irmão da literatura. Creio que o mesmo se possa dizer sobre a superação dos dogmas por intermédio da história. E da literatura.
Em José Saramago, essa síntese entre o registro e a sua sua superação ocorreu diversas vezes. Ele se valia da forma ensaística para questionar e driblar o método imposto pelos manuais de história. Algo que deveria nos colocar para pensar, desde que que avistavamos o título dado ao romance.
Quase nada de "História", se a considerássemos como sucessão de eventos, com vistas a enaltecer pequenas-grandes decisões. É que História do Cerco de Lisboa é um ensaio que faz da negação do texto plataforma para repensar o protagonismo dos "grandes", segundo a historiografia oficial.
Sob essa perspectiva, é romance às apalpadelas, que desestabiliza o lugar da literatura, em si, e de certos manuais de história.
Raimundo Benvindo da Siva é sujeito de hábitos simples e ousadia. Para começar, desconfia do manual que tem por tarefa revisar. Em seguida, acrescenta um "não" a um evento que, em tese, levara Portugal a empenhar novos métodos contra os mouros.
Talvez não seja ousadia dizer que o ensaio, feito seu romance, propõe assertivas a partir de negativas.

domingo, 12 de agosto de 2018

Dia Dele

Nascido em fevereiro de 1973, meses depois os pais tiveram que escutar o médico dizer que a expectativa de vida do filho era de 3, 4 anos. A razão: C.I.V. (Comunicação Intraventricular). 
Por sorte, já haviam sido realizadas cirurgias corretivas, no Brasil, àquela altura. Deste modo, com um ano e sete meses, o primogênito foi operado pela equipe do Dr. Adib Jatene, no Hospital da Beneficência Portuguesa. 
A mãe ainda relembra quão difícil era se despedir do pequenino, a acenar do colo da enfermeira, a cada vez que os pais o visitavam no hospital, durante os trinta dias de recuperação, após a cirurgia. 
Sei que ele cresceu. E que, durante a infância, respondia meio tímida, meio heroicamente -- quando perguntavam os amigos: "tem cicatriz? deixa ver" -- Sim, sim, e mostrava o tronco afetando naturalidade de quem superou a morte.
Quando o adolescente foi pai, aos dezenove, pensou que a filha também representava a continuidade de sua mirrada dinastia. Coisa para mais se gabar, ora se não! 
Talvez por ser algo congênito, o fato é que o garoto era mais emotivo que as crianças com que brincava. Certa feita, o irmão menor desenhou um menino num pedacico de papel que o pai trouxera. O irmão maior tinha oito anos. Ficou encantando com o amiguinho em contorno azul no papel. Mas o irmão menor, sem perceber a importância que o maior dera, rasgou o papelzinho. Então, o menino grande chorou, chorou, chorou; e seu irmão, reparando a gravidade da situação, desenhou dezenas de bonecos em novos papeluchos. Não serviam: ele queria aquele. Deveria ter alguma feição que o aproximara demasiado da figura em celuloide. 
Coração em que o sangue venoso se mistura ao arterial teria maior pretensão de abrangência do mundo? Os azuis e os vermelhos? Os ricos e os pobres? Os que vencem e os que restam? Os que fogem aos pobres e os que deles se aproximam? As mulheres e os homens? Consciência de sua pequenez no mundo? E de como é necessário ser grande para causas alheias? 
Certo dia, voltava da universidade. Depara com várias ligações da filha, no celular. Não havia almoçado, quando telefonou. Não tinha mais pai: o pai dormira e lá permanecera. Percebeu que ser pai sem pai era responsabilidade final e maior: perder o pai da gente implica virarmos pai em dobro, pai no total.
Onze meses depois, foi aprovado em concurso na universidade onde o pai estivera tantas vezes, para dar-lhe uma carona. Enviou mensagens para amigos e antigos colegas da instituição. Desde então, imagina o que o pai teria dito, como teria reagido: "Ah, oui?!", depois "- Trés bien!", decerto. Passaria a mão grosseiramente sobre a sua cabeça, com sorrisão, proclamando: "Il faut fêter
Talvez já estivesse com uma latinha de cerveja na mão, a chave do carro pendurada no bolso, os cabelos em desalinho e os olhos grandes, feito janela do universo, a repetir o rifão que o menino mais velho e mais novo escutaram desde a infância: "Tu mérite, tu mérite". Era isso o que o pai sempre dizia, quando trazia uma lembrança da rua ou atendia ao capricho do filho mimado, que vivia a pedir carrinhos de ferro, gibis e revistas, durante o almoço.
Mais tarde, foi a época de almoçar em locais de predileção do pai. Pequeno pedido para tamanho homem, sempre disposto e generoso. 
Então percebeu: domingo era, definitivo, dia do pai. 

  

  

terça-feira, 7 de agosto de 2018

TCC

Trabalho de Conclusão de Curso (ou TGI, conforme denominação de alguns cursos de graduação): para grande parte dos alunos, um misto de terror e incógnita. Isso porque o tema virou uma espécie de tabu, sem lugar para maior discussão na sala de aula. 
Muitos de nós sequer contávamos com uma disciplina específica sobre isso. Por detrás do nome que recebem (em geral, Metodologia Científica), há um misto de vaguidão. Como pretendem servir para temas bastante diversos, parte dos alunos supõe que se trate de conteúdo de menor relevância. "Disciplina-acessório", como já escutei alguém dizer.
Sob esse aspecto, cabe ao professor (e eventual orientador) estimular que seus estudantes exponham os temas com que desejariam trabalhar, o método que utilizarão, o que motiva a realização da pesquisa e os objetivos em movimento. Reservar um espaço no cronograma para discutir aspectos relacionados ao famigerado TCC, a meu ver, é a melhor forma de aproximar o aluno/pesquisador da tarefa que completa a sua formação.
Em meu caso, continuo a ter a sorte de ser escolhido por alunos inteligentes, engajados para além da individualidade e interessados em propor soluções para impasses. Já houve instituições em que a orientação dependia do crivo da coordenação do curso e, por saberem de minhas convicções (e da liberdade com que os orientandos conduziam suas pequisas), devo ter perdido a oportunidade de conviver com maior número de pessoas tão ou mais interessantes.
Diferentemente do que acontece nos programas atrelados a programas de financiamento, cujas regras são bem mais estritas, o TCC não deveria obedecer aos caprichos do mercado (ao menos, não precisa, no curso onde estou desde 2014). Todos os orientandos que tive o privilégio de "orientar" sabem que li e anotei o que escreveram, indiquei leituras (inclusive filmes, jogos e outros artefatos culturais), modos de estruturar o trabalho, indicação de banca etc, sem faltar palavras de incentivo (e ressalva), quando necessário. 
Há duas coisas em comum na relação orientador/orientando. Salvo raríssimas exceções, dialoguei com pessoas quase sempre sensíveis e inteligentes, incomodadas com determinados elementos de nosso mundinho planificado, afeito ao lugar-comum. Outro traço comum: todos, sem exceção, praticamente despareceram e os diálogos, quando há, são realizados no ciber espaço.
Talvez isso "explique" a postura de alguns colegas de ofício, que tratam o aluno com distanciamento. Às vezes penso que não se trata apenas de arrogância (por parte do orientador), mas de insegurança: para que desperdiçar tamanha energia, gastar os olhos lendo argumentos sem consistência, tirar dezenas de livros das estantes etc, para ajudar um sujeito que, passado o dia da banca, nunca mais fará contato conosco? Creio que é assim que eles se sentem e pensam. 
Comigo as coisas são diferentes. Invisto tempo, conversa, cafés, livros em forma de presente... Não obedeço ao provérbio de que é preciso olhar a quem se faz o bem. Subversão? Orientar ensina muitas coisas, inclusive a vibrar muito com as conquistas dos alunos, sem tomar para si o trabalho deles (especialmente artigos em revistas, resumos em eventos etc). 
Evidentemente, corre-se o risco de eles não reconhecerem o tudo que fizermos e sequer destinarem uma ou duas linhas na lista de "Agradecimentos". Ainda assim, vale a pena. Para mim importa muito mais a qualidade que tivemos, durante o tempo de convívio que os "produtos" porventura gerados. 
Antes dedicar-se ao máximo, sem hora para responder a mensagens (inclusive de whatsApp), que afetar falsa segurança de alguns "mestres" afeitos à reprodução estrita da ABNT e às leis de um mundo sem lugar para muita coisa além do dinheiro e o pseudovalor do lucro monetário.
Creio que meus alunos fizeram o que mais quiseram. Nosso papel é auxiliá-los a aprimorar os meios de realizar a tarefa de melhor dizer. Se não, corremos o risco de converter a sigla (TCC) em Trabalho de Castração do Curso.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Tomada de Posição

Demorou um pouco, mas um dia a coisa começou a virar para o meu lado. Como havia saído cedo de casa, reaprendi a enxergar as mulheres de outros modos. A primeira mudança, portanto, começou com uma nova postura, vivida em três fases: 1) reconhecer as diferenças de tratamento; 2) solidarizar-me com as mulheres; 3) defender a igualdade entre os sexos (e, mais recentemente, entre os gêneros). Isso começou aos 17...
Um dia – era abril de 2000 –, estava numa assembleia de funcionários, quando um amigo (que fizera durante a graduação) revelou posicionamento oposto ao meu, quanto ao fato de entrarmos, ou não, em greve. Lembro-me de ter ficado incomodado com o tom que ele adotara, como se se tratasse de palavra de ordem, com direito ao estabelecimento de um “Comando de Greve” etc.
Ora, foi justamente ao me manifestar, irritado, contra a fala de meu amigo – secundada pela maioria dos presentes – que tomei a primeira grande lição daquele ano. Ele reiterou, com justa firmeza, que a assembleia era soberana; que estávamos em estado de greve e que as questões pontuais precisariam ser submetidas ao Comando.
Dito de outro modo, foi a partir de 2000 que a tal postura menos machistoide somou-se a um efetivo comportamento solidário em favor das chamadas “minorias”. Àquela altura, os movimentos na universidade refletiram coesão raras vezes vista. Alunos, Professores e Funcionários dividiam as assembleias numerosas, que aconteciam na maioria das unidades da USP.
Foi lá que tanto aprendi a desconfiar de incertos discursos; que passei a rever o que diz e rediz a mídia tradicional. Em suma, de que é preciso tomar um lado, especialmente em momentos de crise. Foi lá, também, que reconheci a importância de escutar os colegas de ofício, em seus problemas de seção (atendimento a alunos/clientes e professores) e suas questões pessoais.
Isso tudo para dizer que, não soube lidar com a reprimenda de meu amigo, durante aquela assembleia, realizada dias antes de a greve tomar corpo. Desde então, sou muito grato a ele (Helder Rossi), e também ao Marcelo Cardagi e ao Irineu (cujo sobrenome me escapa) e a outros tantos bons comparsas, que me fizeram abandonar o “porto seguro” em que julgava me encontrar – mais ou menos afeito aos princípios de papai e mamãe e aos amigos da escola jesuíta onde havia sido doutrinado para reproduzir mais do mesmo e sonhar com dinheiro, mulheres e Disney. Isso começou aos 27...
Quero acreditar que havia algo de “estranho” no aluno do Colégio da Companhia de Maria, onde estudei da pré-escola ao ensino médio: gostava de quase todos os meus professores (e, pretensiosamente, desculpava-os em suas aparentes “faltas”). Admirava-os em seu trabalho e saber. Lembro-me de como encarava a Matemática como diversão, enquanto resolvia os problemas e equações, no fundamental; de como a Geografia continha seu tanto de Geopolítica; gostava de saber as regras do “bom” Português (embora só tenha entendido melhor as lições de sintaxe ao lecionar); adorei entender Física (a muito custo) e de como me senti menor por não tê-las compreendido desde o princípio etc.
Então, apareceu Wanda Antunes, que nos ensinou a filosofar aos quinze anos. Lemos Albert Camus (A Peste) e George Orwell (1984) e o mundo do Outro se abriu através da literatura. Eu, que sempre fui tímido, senti que aquilo fazia máximo sentido. Era a primeira etapa do “Colegial”... Dois anos mais e contamos com a Professora Conceição, que lecionava História do Brasil. A primeira coisa que ela fez: questionar (e abandonar) o livro didático (Raymundo Campos) que utilizávamos. Se eu tivesse assistido ao filme Sociedade dos Poetas Mortos em 1989, teria estabelecido diálogo imediato com a postura de Conceição adotada no ano seguinte…
Salvo engano, vivo num país subserviente aos Estados Unidos da América, pelo menos desde a Primeira Constituição, dita republicana, promulgada em 1891. Nos anos seguintes, tornaríamo-nos “Estados Unidos do Brasil” – denominação mais tosca e indigna que poderia haver. A questão é que o alinhamento com os States nunca foi exatamente espontâneo.
Neste momento, a exemplo de tantos outros episódios vexaminosos de nossa historieta, é preciso tomar um lado. Mas, antes que venha me falar em “corrupção”, peço-lhe que fundamente o “seu” “argumento” em provas. E não se esqueça, é claro, de fazer autoexame, ao defender a legenda partidária em que julga votar “por contra própria” (e não por influência de pais, amigos “bem-sucedidos”, yotubers que nasceram ontem e jornalistas da tevê).
Uma dica: não há nada de “centro”, no que a mídia velhaca passou a chamar de “Centrão”, meu (minha) cara. Isso porque também não havia nada de “comunista”, nos governos de Lula e Dilma (eles, sim, governaram como centro). Não há nada de social-democracia na sigla dos tucanos. Desde quando “SD” combina com Privatização, Estado Mínimo e Regime de Exceção? 
Tomar Partido é decisão que se faz pelo Outro.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Acervo

Dia 6 de julho de 2018 d.C., em acordo com o Calendário de Papa Gregório, aquele. No último dia de atividades do semestre (uma banca de TCC), um sujeito deixa o apartamento, financiado, às 9h35. Pega o primeiro ônibus, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, às 9h45; desce na Avenida Rebouças e, às 10h35, toma o segundo coletivo (702U) -- que o levará até a Universidade. 
Como chegara uma hora antes do horário, desce no ponto em frente à Faculdade de História, segue até a Biblioteca Florestan Fernandes, onde supõe que devem continuar (em tempos de greve) as edições de Casa Velha -- novela de Machado de Assis descoberta na década de 1940 pela biógrafa e crítica Lúcia Miguel Pereira (nos sebos virtuais, a primeira edição, pela Martins, custa quase 3 mil reais. Está certo, a moeda desvalorizou; calculemos em dólar, uns 750, já que somos Neocolônia). 
Chegou. A porta está aberta. Dá para ver desde a calçada onde os carros encostam. O sujeito mostra o crachá de plástico, em troca da chave do cadeado. Guardou a pasta no armário. Carrega carteira, celular. Confirma a localização dos exemplares da novela no acervo (869.9341MAcv). 
Folheia alguns deles. São 10h20. Terá tempo de tomar café, antes de encontrar os colegas. Satisfeito e sorridente, empunha os livros -- que também constituem armas contra o mundo egótico, venenoso e excludente de Temer et caterva. 
Agora falta pouco: está em frente ao balcão de atendimento. Uma das funcionárias entretém-se com um jogo no microcomputador. Seu colega da direita, visivelmente contrariado, olha ranzinza para a moça e, sem disfarçar a má vontade, faz gesto para o sujeito se aproximar. O indivíduo exibe os dois exemplares e os entrega ao rapaz com a sua carteira de identificação -- que comprova seu vínculo como docente da maior Universidade (dizem) da América Latina. 
Mas, por aqui, também, o professor já não vale tanto. O atendente, ainda de má vontade, em lugar de solicitar gentilmente que o sujeito digite a "senha de usuário", dirige-lhe a palavra em tom raivoso: "-Senha!". O docente já digitou a senha. Neste instante, o rapaz baixa um dos livros, mas sustenta o outro no ar. Parece procurar por algo, enquanto balança a cabeça irritado. Decreta, fatalmente: "está sem ficha de catálogo". Entre dois "hãs" daquele que carrega os livros, recomenda que se dirija à seção em frente ("Atendimento ao Usuário"), para que se efetive o procedimento de cadastrar o livro para empréstimo.
O sujeito vai até a seção. Estranha ter sido encaminhado para lá, sendo que não havia viva alma por lá. Lança olhares para uma outra funcionária, mais solícita. Ela pergunta o que deseja. Ele responde. Ela ensina: "Quem faz isso é o Bibliotecário". Hum. "Mas ele saiu para tomar café". Retruca: talvez seja mais fácil procurar por outro exemplar. Silêncio. 
O usuário torna outra vez. O que há de mais em subir de novo até o terceiro pavimento, não é mesmo? Na biblioteca, além dele (é dia de jogo da seleção), deve haver dois usuários. Talvez deem trabalho demais, o que explicaria não haver possibilidade de os atendentes não atenderem. O sujeito pensa: haveria possibilidade de um dos colegas contatar o bibliotecário que tomava café? Melhor não estender a reflexão, embora tenha por ofício "pesquisar e falar" (como disse Roland Barthes, em Aula).
A caminho da seção machadiana do acervo, recorda-se de ter visto outros exemplares da primeira edição de Casa Velha, em volume. Reencontra. Compara-o com aquele que não poderá retirar: nele consta um segundo código de barras, onde se lê "Dedalus" (no outro, só havia o número de "Tombo"). 
Desce novamente as escadas, pensando quanto vale um professor na universidade. Não deve valer muito, ainda mais vestido como ele, de calça, camisa e sapato com palmilha comfort. Agora, era questão de honra: queria mostrar ao atendente inicial que a má vontade dele fizera-o ter mais trabalho para levar um exemplar emprestado. Mas, como já se sabe, há outros dois funcionários, além daquele. Então, um aparentemente mais animado, convida-lhe: "Faz a volta". 
Passa pelo detector (não apita). Retira a pasta do armário (número  95). Deposita a chave na caixa de madeira, sob os cuidados de dois funcionários (estes, terceirizados). A fome havia aumentado: desce o sujeito até a lanchonete "Tia Bia", desvia das abelhas enquanto sorve café com leite e um enroladinho. 
Houvera um tempo, quando ele mesmo fora funcionário da maior universidade da América Latina, em que ele defendera a si mesmo e aos demais colegas, por diagnosticar que a terceirização dos servidores era prejudicial às relações (sem vínculo qualquer) na universidade. 
Agora, epifania!, mais uma vez, repensa: "E quem disse que ter vínculo funcional assegura o reconhecimento do outro?". 

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Reencontro com Leandro Konder

"[...]a demagogia fascista assume frequentemente formas 'populistas', lisonjeando o 'povo', prestando-lhe todas as homenagens e contrapondo-o à 'massa' (que representa apenas o peso morto da 'quantidade')" (Leandro Konder)*

Estimada(o)s Internautas,

Após três meses de novas experimentações virtuais no WordPress, pareceu-me o momento de retomar as escritas neste velho e bom Blogspot. Isso também porque alguns seguidores questionaram minha ausência por estas plagas. 

Nesta missiva, também há espaço para novidades. Uma delas é que me tornei "blogueiro" do Jornal GGN. Caso queiram me acompanhar por lá, acessem, por obséquio: https://jornalggn.com.br/blog/jean-pierre-chauvin/patrulhamento-por-jean-pierre-chauvin

Mas já é tempo de justificarmos o título dado a esta postagem. Hoje a Editora Expressão Popular celebrou um ano do lançamento de seu Clube do Livro, que conta com centenas de assinantes em quase três mil municípios do país. Durante o evento, tivemos oportunidade de escutar os belos depoimentos de "Belê", Cecília e das duas educadoras que prefaciaram o livro Um mundo a construir, da militante chilena Marta Harnecker. 

Havia meses que considerava possibilidade de me associar à agremiação. Eis que hoje, inspirado por essas falas, concretizei a tarefa. 

Enquanto lá estive a rondar o acervo da loja, topei com Introdução ao Fascismo, do inteligente, combativo e saudoso Leandro Konder. Como já sucedeu em praças, muros e carteiras, sua escrita é envolvente. 

A despeito do tema ser aparentemente árido -- em especial para a geração apolitizada de nossos tempos de capital fracionário e bitcoins --, Konder tinha a virtude de transformar o que seria uma lição de coisas (tão sabidas por ele) em iluminação. 

É o que sugere o teor do texto; a divisão do assunto em pequeninos capítulos -- como se estivéssemos a ler verbetes, mas sem a linguagem rebuscada das enciclopédias. 

Para quem continua a confundir siglas partidárias com orientações políticas ou a repetir o chavão neoliberal de que a "Terra é Plana", por isso, globalizável, deixo apenas um tira-gosto, que talvez dê uma boa medida do poder de sedução deste livro que re-ensina a pensar para militar: 

"[...] o conceito de direita é imprescindível a uma correta compreensão do conceito de fascismo, embora seja mais amplo do que este: a direita é o gênero de que o fascismo é uma espécie" (p. 27).

Agora, para aqueles que optaram por dar crédito à Rede Globo e à "grande" imprensa, fica outro recado lúcido do pensador, que sugere o caráter autodevorativo dos seres exclusivistas, incapazes de solidariedade:

"O próprio sistema em cuja defesa as classes dominantes se acumpliciam -- um sistema que gravita em torno da competição obsessiva do lucro privado -- impede que as forças sociais em que consiste a direita sejam profundamente solidárias: elas só se unem para os objetivos limitados da luta contra o inimigo comum" (p. 28).


*Leandro Konder. Introdução ao Fascismo.2a ed. 
São Paulo: Expressão Popular, 2009, p. 40.