segunda-feira, 25 de março de 2013

O porteiro

Talvez eu esteja motivado pela releitura de "Vista Cansada", belíssima crônica em trinta linhas deixada pelo mineiro Otto Lara Resende (1922 - 1922), meses anos de falecer. O fato é que, ontem à tarde, ao retornar do Mercado próximo deste apartamento, um dos porteiros do Condomínio segurou a porta, de modo que eu passasse com a caixa de papelão. Saiu com esta: "Quer dizer que o senhor vai abandonar a gente?". Respondi-lhe que sim, em algumas semanas, ao que ele soltou: "Olha, o senhor conte sempre com a gente, viu?". Está certo: faltam a este sucinto relato a emoção que senti; a entonação, a expressão dos interlocutores; o cumprimento que fiz a ele com a mão temporariamente livre. Mas, em termos mais próximos da lógica que da sensibilidade, eis que nestes quase dois anos de província, sempre me incomodei por ser tratado por eles como "senhor". Um fato, no mínimo curioso, é que sempre me aproximo dos funcionários dos locais onde moro, frequento ou trabalho. Será possível fazer amizade com gerentes de banco, driblando contas pessoais e cotas mensais de captação de clientes e empréstimos? (De Crônicas vorazes, a caminho).