sábado, 31 de agosto de 2013

Das formas de razão


O sociólogo Max Horkheimer disse certa vez que "Na maior parte dos casos, ser racional significa não ser refratário, o que por sua vez conduz ao conformismo com a realidade tal como ela é. O princípio do ajustamento é dado como certo. Quando se concebeu a ideia de razão, o que se pretendia alcançar era mais que a simples regulação entre meios e fins: pensava-se nela como o instrumento para compreender os fins, para determiná-los. Sócrates morreu porque submeteu as ideias mais sagradas e correntes de sua comunidade e do seu país à crítica do daimonion, ou pensamento dialético, como Platão chamou." Eis um dos trechos mais estimulantes de O eclipse da razão: uma coletânea de falas que o pensador alemão proferiu no Institute of Social Research da Columbia University, conforme suas palavras, durante "a primavera de 1944". Fico a pensar que nesses tempos chamados pós ou hiper-modernos (como sugeriu recentemente Gilles Lipovetsky), em que vivemos um escancarado neo-ultra-romantismo, só uma pessoa um tanto pretensiosa e de ego muito inflado pode almejar dizer algo exatamente novo, original, à beira da genialidade. Apesar de a internet prometer catalogar mais de cinco mil anos de história e trilhões de sites - ou, por isso mesmo -, o máximo que podemos fazer é recombinar as coisas existentes e apresentar uma proposta para exame nosso e/ou alheio. Ela não será de todo original, a exemplo deste post, por exemplo, mas pode sugerir um novo método de aproximação de conteúdos, formas e meios de expressão. Para quem supuser que vivemos num extremo racionalismo - disfarçado de tecnologia à toda prova e em substituição de todas as outras formas humanas - vale lembrar que o mesmo Horkheimer dizia que, desde o final da Segunda Guerra Mundial vivíamos uma razão subjetiva em lugar da razão objetiva, conforme apregoada pelos antigos. Possivelmente mencionar livros dos anos de 1940 em um blog seja algo com buquê de coisa ultrapassada, velha, demodé. Não vejo problemas: o que há de soberbo nas falas óbvias e reproduções de imagens e ditos alheios, em nosso tempo? Ah, "perca", sim, o seu tempo lendo: determinadas páginas valem mais que um quilo de pessoas estúrdias que vivem a ecoar o que afirmam os âncoras, os jornalistas e outros pseudo filósofos de nossa era. Talvez "Era" seja, na verdade, um verbo mal conjugado - tão somente. (De Crônicas vorazes, no prelo).