quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Conventio

Há um homem que grita, na Praça Roosevelt. Frequentemente ele se faz ouvir de manhã. Senta-se no terceiro degrau, à sombra, munido de sua garrafa térmica e boné e se põe a rir e vociferar coisas que não entendo bem. Mas, por vezes, ele faz novo serão - em uma hora dessas - o que me leva a repensar nos estreitos limites da convenção social (que tanto prezamos). Há uma acirrada disputa na cidade. Ela nos apequenou (supondo que tivéssemos vocação para coisas maiores) e, por isso mesmo, alguns homens que se arrogam como gente grande, ordenam, pomposos, que alguém encere seus carros, confundindo polimento com polidez; e poder de brilhar com superioridade sócio-econômica. Há um acirrado embate a contagiar o discurso de uns e outros, a defender causas alheias fingindo serem suas. Na falta de maior capacidade de tolerância, instalamos bombas por intermédio da fala; simulamos éticas de araque, em nome de critérios absolutamente relativos. Então, voltamos para casa, acreditando ser capazes de escolher o melhor canal, ler o jornal "mais" isento. Julgamos ensinar a nossos filhos e amigos virtuais várias formas de como dizer, pensar e fazer, como se portássemos uma razão máxima e sobranceira: tão altiva quanto nós, que não gritamos, não vamos para a praça, não compartilhamos risos e avisos municiados de bons ouvidos e algumas doses de café.