sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Arte (espontânea) da conversação

Com os verdadeiros amigos a coisa funciona assim. Agendamos, no linguajar mais adulto possível, o reencontro em uma livraria. Suponhamos, a Martins Fontes da rua Dr. Vila Nova. Lá folheamos alguns livros - cuja leitura adivinhamos ou degustamos por antecipação. Em seguida, vamos a um café, para tratar com mais tempo e vagar dessas e de outras coisas (os filhos, os alunos, os projetos literários, as estratégias para persuadir o nosso auditório, as alegrias e percalços do mundo acadêmico, o maniqueísmo discursivo de nossas revistas e jornais, as relações poéticas e culturais entre obras e autores de tempos sobremodo distantes, as vicissitudes do mercado editorial, os novos hábitos de consumo e o papel da literatura na vida das pessoas, a figura do erudito generalista versus o mega-especialista sob as ordens e desígnios dos órgãos de fomento e assim por diante). De súbito, liga a esposa de Iuri, em tempo - mesmo porque, depois de duas horas e meia mais duas xícaras de café, estávamos havia pelo menos mais meia hora em pé, à beira da esquina com a Consolação, (con)versando ininterruptamente. Ah, o discurso fluido, ágil e pleno de conteúdos, ideias e sugestões de novos planos relacionados à literatura. No fim das contas, creio que gosto de ouvir e compartilhar projetos porque assim encontro uma desculpa pretensamente madura e pragmática para me manter mais tempo em diálogo com amigos que me são tão caros. Obrigado, Iuri. Leve meu abraço, as memórias e a expectativa de novas e saborosas conversas - que já duram mais de 17 anos. Eu não sou nem serei Rilke; mas permito-me dizer que este relato poderia ter recebido o título de "Carta a Iuri". Soaria kafkiano e igualmente elegante.