segunda-feira, 13 de abril de 2015

Eduardo Hughes Galeano (1940-2015), Companheiro

Inevitável sentir-me metade órfão intelectual, metade órfão político, diante da morte do notável jornalista e historiador que foi Eduardo Galeano. Ao me deparar com a manchete em espanhol sobre sua inexistência desde este aziago dia treze de abril de 2015, voltaram-me algumas sensações de cinco anos atrás, quando José Saramago partiu. Sempre que pude, convidei os alunos de diversos cursos a lerem "As veias abertas da América Latina", publicado quando o uruguaio tinha apenas trinta anos. Obra fundamental, ressalto e meio, pois diz muito sobre nossa condição a reboque, como brasileiros e, mais, como sul-americanos, reféns dos homens "civilizados" da Europa, que etiquetaram a América como "Novo Mundo": expressão que só fez registrar o massacre de milhões de nativos que aqui já estavam a fazer um universo de ritmo e dimensões outras, para além do moralismo hipócrita e genocida, em nome de deus, dos reis e do mercantilismo. Mas, é claro, os tempos mudaram; só a nossa condição servil é que persiste, pelo menos desde um século imitando e reproduzindo modelos de ser, agir e pensar de outros povos (antes a Europa, depois os EUA), o que nos faz olhar para nós mesmos como se fôssemos alienígenas, inadequados aos modelos que nos engessam. Isso, apesar de sabermos que os modelos chegam "democraticamente" de fora, sob a tutela dos "xerifes do mundo" - como Eduardo Galeano se referia aos Estados Unidos, aquele país para quem a América volta os olhos, os ouvidos e todo o resto. Eis que, digerindo a morte desse Eduardo, fiquei a pensar que o impacto provocado por ela não será o mesmo nas outras pessoas, evidentemente - e em particular, para aqueles que insistem em dizer que "o mundo é assim, fazer o quê?", enfiados em suas micro-telas nos gadgets tão reduzidos quanto a sua ótica enviesada, embora tecnológica, mega pop, ultra-moderna, que desconsidera a história (a passagem do tempo) e o fato inelutável de que as pessoas fariam melhor os lugares se tivessem maior consciência de sua importância e força. Eduardo Galeano fazia-me recordar, assim como José Saramago, de nossa postura "abre-pernas", egótica e conciliatória; levava-me a lembrar que nossa resistência deve ser contínua e pode combinar sabedoria, conhecimento e alegria. Indignar-se é saudável, ainda mais num mundo crescentemente tomado pela apatia e pelo descaso para com o outro. Que Galeano inspire a luta e nós tenhamos a oportunidade de respirar, também por intermédio de suas lúcidas palavras.