sexta-feira, 1 de maio de 2015

45 minutos

Acabo de retornar de uma jornada sobre duas rodas, quadro e marchas no Elevado. Foi a segunda ocasião em que retirei a mim mesmo, e à nova bicicleta, desta sala em que ela está conjugada aos livros, discos, filmes e instrumentos. Durante primeira parte do trajeto, da Consolação em direção à Praça Marechal Deodoro da Fonseca (Viva!, estamos cercados toponimicamente por senhoras autoridades celebrizadas por nossos livros de história), experiencio a costumeira sensção de altivez, de algum poder maior que aquele de pagar as contas, e uma réstia (posto que seja algo extraordinário) de liberdade. Recordo-me de algumas andanças pelo “minhocão” (Salve, Lu! Sim, vamos almoçar e prosear horas a fio, dia desses, diga-me quando e já). Desvio-me para a banda de cá, para a banda de lá, para evitar atrito com os cães e seus proprietários bípedes; a fim de não me tornar obstáculo móvel, trambolho para os pedestres, que marcham ou correm. Logo à frente há um conluio canino e, por medida de segurança ou fobia, retorno ao início, cá do lado em que habito desde o final de abril de 2013. Retomo o trajeto, no sentido à Barra Funda, decidido a ganhar coragem de driblar os donos e seus cães (pequeninos ou pitbulls) com que venha a me deparar no caminho. Enfim, ultrapassei o marco imaginário da vez primeira! Sigo, combinando marchas e velocidades para me habituar ao câmbio que tão bem responde ao desenho da mão (indicador direito: mais força; polegar esquerdo: mais velocidade; indicador da mão esquerda, marcha pra baixo; polegar da mão esquerda, marcha arriba. Mal lembrava de que a bicicleta também afoga, quando cruzamos as polias...). Da segunda vez em que volto em direção à Praça Roosevelt, avisto desde a Marechal a Torre do antigo Edifício do Banespa. Então, a altivez, a liberdade e o desejo de amplitude cedem o turno à nostalgia, marcada por aquele espaço, mas recuado a outros tempos (2008): tempos felizes, apesar de amargos, em que reconheci quão grandiloquente e arrasador pode ser o afeto maior, aquele: sublime, desesperado, apressado, ansioso, outramente, maiormente. A nostalgia, ainda que fugidia, acompanha-me durante parte do percurso, mas aos poucos se dissipa, porque volto a pensar nas coisas a fazer (louça a lavar, livros a ler, textos a produzir, filmes a assistir, pessoas a visitar, filha a reencontrar, mãe a telefonar). À medida que me aproximo da última curva, antes de virar à direita, mirando este pequeno prédio verde limão-desagrado, recordo-me de meu pai e de seu hábito – disciplinado – de “faire du velo” aos domingos de manhã, antes de almoçar comigo e sua neta em restaurantes bons e amistosos aqui: “au centre”. O saldo é multiplamente positivo, a começar pelo fato de poder dizer que em lugar de marchar ou bater continência, caminhei tranquilo e docemente por sobre o General Costa e Silva (que o Elevado se torne parque: o nome seja outro) e lá fui esnobar o Marechal Deodoro da Fonseca, dando-lhe as costas. Da próxima vez, aumentarei o tempo, o ritmo e a força emancipatória das pedaladas.