terça-feira, 12 de maio de 2015

Indizíveis

Pelo menos há dois anos frequento um bar na Maria Antônia, onde almoço ou tomo o aligeirado café da manhã. Fiz o mesmo hoje e pude confirmar o fato de que o sujeito que responde pela caixa do estabelecimento tem dificuldade (ou não está a fim, oras!) em exprimir votos positivos para seus clientes regulares. Isso não se restringe, esteja claro, a uma questão de extração social ou de status perante os outros homens: o mutismo, a fala entrecortada por marcadores conversacionais e gírias idênticas, o ato de esbarrar com os outros nas ruas parecem ser sintomas de um tempo de inflação do ego. Se Sigmund Freud me autorizasse, poderia sugerir que vivemos na Era do Egão, definido assim no aumentativo, termo extravagante, já que também tenho cá o direito de chamar a atenção sobre mim mesmo. Foi com meu pai que aprendi que todos gostam de ser reconhecidos. Quem faz um bolo, quem dá uma aula, quem consegue fechar um negócio, quem cuidou de uma flor... Anos depois é que vim a ler Erasmo de Roterdã (Elogio da loucura) e com ele me dei conta de que a vaidade funciona como grande impulsionadora de nossas pretensas virtudes, muitas vezes com o fim de receber elogios e/ou cobrar o mesmo da outra parte. No início dos anos 2000, voltei à leitura da Bíblia, em função dos estudos sobre Machado de Assis. No Eclesiastes, livro muitas vezes citados pelo autor fluminense, há a conhecida cláusula: "Vaidade, vaidade. Tudo é vaidade". A cada vez que alguém deixa de responder ao sorriso, à piada e aos sinceros votos para o melhor dia possível, tendo a procurar pistas que expliquem essa falta de cumplicidade. Frequentemente atribuo o mutismo do caixa ao hábito cultivado pela maior parte de seus clientes de pedir, consumir e pagar sem qualquer palavra gentil de permeio. Nesse caso, talvez ele tenha desistido de ser amável e simpático, como reza a cartilha das transações pecuniárias.