domingo, 24 de maio de 2015

Manifesto Docente

Ora, pois, de Moisés ao século XXI, determinados líderes (também chamados de messias, papas ou gênios de diversas áreas) criaram regras com que pretenderam instaurar um universo de riqueza material e plenitude espiritual, supostamente atribuído a todo ser humano com boa-fé, virtudes mais e vontade. 

Erasmo de Roterdã disse, há cinco séculos, que a vaidade é uma das sequazes da loucura. Pois bem, afora o fato de esse livro poder ser considerado como uma demonstração de cabotinismo de mim mesmo, pensei em bolar dez máximas como forma muy particular de registrar as convicções de um professor. Este que voz dirige a presente missiva. 

Sem mais delongas, lá vão elas:

I - Tecnologia não salva aula ruim.
II - O bom professor equilibra éthos (caráter), páthos (paixão) e logos (saber) em seu discurso. Lição de Aristóteles (384-322 a.C.).
III - Antes ministrar uma aula trabalhosa, mas decente, que uma gincana para ocupar o tempo com alegria fácil e superficialidade enganosa.
IV - De modo geral, os alunos preferem o professor rigoroso ao desregrado.
V - Desprezar livros "antigos" equivale a censurá-los (como na Inquisição) ou queimá-los (como o fizeram os soldados de Hitler, em 1933).
VI - Repetir as mesmas palavras sem cessar pode até marcar a personalidade do professor; mas, de maneira geral, irrita os alunos, que desconfiam do repertório e da velocidade mental de seu mestre.
VII - Não existe discurso neutro. Julgar, condenar e punir o professor que diz o que pensa é atitude tacanha e hipócrita daquele que esquece o fato de que doutrina e docência são palavras de mesma raiz latina.
VIII - As aulas não precisam, necessariamente, "servir" para algo particular; de modo geral, a cultura caminha na contra mão do pragmatismo.
IX - Antes de criticar a aula de seu professor, pondere se você tem o mesmo repertório e empenho em estudar; a mesma habilidade e interesse em (se) formar que ele. Considerar a bagagem e a linguagem dos alunos não implica em anular a autoridade e o repertório de quem está lá para "pesquisar e falar", como bem disse Roland Barthes, em sua "Aula" de 1977.
X - Via de regra, o aluno mais esforçado reconhece o bom professor, mesmo porque ambos trabalham com disciplina (o que não impede o eventual tom jocoso), seriedade (o que não impede a desejável alegria) e modéstia (o que não impede chegar ao sublime).

Planeta Terra, 24 de maio de 2015 
(dois anos após a morte de Pierre Daniel Chauvin: o melhor professor que terei).