quarta-feira, 3 de junho de 2015

Ler é resistir

Infeliz do professor que trata a sério de autores, temas e obras que demandem a leitura prévia (ou atenta) por parte de seu auditório, por mais homogêno que o público seja. O problema reside não no repertório do aluno, porventura existente, ou em seu mero (des)interesse, mas na formação do gosto. O educador se vê na tarefa inglória, e muitas vezes incompreendida, de inocular o positivo hábito de ler. Ou seja, ele se vê como um médico ou xamã, diante de uma parcela refratária, a ministrar um dos remédios de que os próprios estudantes precisam, embora desconfiem da aula e acreditem que são autossuficientes. Num país de raros leitores e parcas bibliotecas, o livro caro vende mais, muito mais, do que aquele que facilita o acesso a conteúdos relevantes, com interesse histórico e cultural. Ou seja, diante de um público que lê mal ou diagonalmente, além de fazer o seu trabalho (pesquisar, preparar aula, ministrar aula, orientar, tirar dúvidas, corrigir atividades), o professor precisa desenvolver técnicas diárias de resiliência, pois lidar com a apatia e a indiferença trazem cansaço. O aluno pode desanimar, ausentar-se, considerar-se cliente;  o professor, não. Ele tem que justificar, o tempo inteiro, o papel da bibliografia mais básica justamente para quem deveria ter avidez - ou curiosidade, ao menos - pelos assuntos, autores e obras sugeridos - por sinal, elencados no programa. O resultado é que os sinais estão invertidos: justamente o aluno que não faz sua parte é quem mais demanda atenção e se coloca numa posição clientelista, na expectativa de textos mais fáceis e dirigindo-se ao professor somente para tratar de questões supostamente úteis ou mais relevantes ("o que cairá na prova? do que se falou na aula passada? haverá algo importante ou valendo nota na aula de amanhã?"). Como lidar com estudantes que aprenderam a ser servidos desde o berço e cultivam uma visão absolutamente egocêntrica do mundo (em que pensam viver da melhor forma)? Que não reconhecem o trabalho de seu professor? Que tiram sarro da aula, questionando seu valor e utilidade? Creio que o educador não possa se demover de seu posto. Mas, acima de tudo, o seu papel deve estar claro para si. A sua fala deve revelar que ele é autorizado a fazê-lo. Quanto ao que pensam e demandam os alunos, é preciso que o educador crie reservas de energia para não se sentir como um bobo da corte, a cada vez que o coro de vozes não soar em uníssono. Ora, a mediação de conhecimento sugere bilateralidade, e não o embate por motivos vagos, a desarmonia. É preciso que professores e alunos deixem de ocupar postos fixos e distantes. Sob essa ótica, a leitura pode constituir uma síntese essencial (supondo-se que alunos e professores ocupem posições assimétricas) para a qualidade do encontro. Também chamado "aula".