quinta-feira, 16 de julho de 2015

Das coisas maiores

[Relato de 13.VII.2015 d.C.]

Cá estamos. Venho de um sebo da Rua Sete de Abril, onde fui buscar Lógica formal/Lógica dialética, de Henri Lefebvre – expoente do pensamento materialista francês do final da década de 1960, cujo contato e conhecimento devo ao colega e amigo Ricardo Baitz, com que tive a alegria de dialogar enquanto dividimos aulas, bancas e filosofias de boteco na Fatec São Caetano do Sul. Voltando para este castelo de 40 metros quadrados, sinto que alguém tenta-me arrancar o exemplar que acabara de retirar. Irritado, deparo com uma fila de crianças, com seus sete, oito anos. Faço uma careta, em tom de honesta e severa reprimenda ao que, instantaneamente recordo-me de meu pai. Penso, ralentando o passo: “certamente ele teria agido de outro modo”. Talvez até sorrisse, largo e contagiante, que era de seu feitio, para o menino que puxava o pelotãozinho de guris; arquearia as sobrancelhas e desenharia uma careta divertida, para que nem ele se sentisse incomodado com o gesto infantil, nem o menino lembrasse de tanta distância que há entre crianças e adultos, nem da tremenda distância sócio-econômica entre uns e outros, a trilhar pelas ruas tortas e calçadas estreitas da maior cidade do hemisfério sul. Decido celebrar o reencontro concreto, posto que imaginário, com Henri Lefebvre numa tradicional cafeteria do Copan. Tiro uma foto do livro, pires e balcão; saboreio o café; dirijo-me ao caixa, onde um senhor atende há anos. “Quanto é o café”? “Quatro reais”. Tiro duas cédulas, tendo em vista facilitar o troco e conceder-lhe uma pequenina alegria. (A vida de caixa não deve ser fácil, com tanta gente arrogante a vociferar comandos e exigir, impacientes, cédulas miúdas de volta). Estendo, alegre, a mão: esta parte do corpo que o senhor ignora (pois decidira fazer algo, olhando para o aquém enquanto eu lá esperava), embora não recuse o dinheiro como pagamento. Sinto-me frustrado: muitos homens na posição de caixa agem desta forma, pouco importando o lugar e o público que o frequente. Talvez eu pudesse objetar-lhe que é falta de respeito deixar de olhar para quem nos paga. Mas, tsc, tsc. Que(m) sou eu para ensinar algo a uma pessoa que poderia ser meu pai? Um sujeito que talvez esteja cansado de trafegar entre o balcão, as máquinas e a caixa registradora, ora? Questão de somenos a qual porventura eu esteja atribuindo muita importância. Ou estaremos a tolerar, em demasia, a fala monossilábica, os gestos, em contraparte, que não vêm? Como sempre digo, os livros têm-me sido melhor companhia que muita gente fincada às sombras, ou à luz do sol, mesmo.