terça-feira, 15 de setembro de 2015

Independência

Não, não falarei sobre a desclassificada política, nem reproduzirei meios-pensamentos de micro ou grandes empresários, repetidos sem qualquer critério por alguns macro-indivíduos. Esses assuntos, afinal, costumam render poucas visualizações e, claro esteja, quem escreve num blog tem a expectativa de algum alarido público, reconhecimento em geral e reflexão alheia.
Hoje o tema é outro, "antigo" dentre as confabulações de cá. Refiro-me aos seres que confundem desejo de emancipação, algo em geral saudável (se não trouxer o egoísmo de brinde), com a pretensão de absoluta independência. 
É que isso pode soar altivo e arrogante. Illustremos: quem faz apologias ao uso do carro, a despeito do trânsito cada vez menos convidativo nesta província, alega estar "mal-acostumado(a)" a isso e a preferir a "autonomia" franqueada pelo transporte particular que, de quebra, assegura menor exposição às intempéries (em tese, divinas) e às violências do cotidiano (quase sempre, por culpa dos outros). 
O que esse falante não reconhece, afora o desejo de algum privilégio ou forma de distinção em meio à massa, é que dependemos de o carro estar em condições de rodar (óleo, pneus, combustível, mecânica, ipva) e de que não haja pedestres ou ciclistas (a protestar por todos nós) nas principais ruas ou avenidas. Dependemos deles. Dependemos uns dos outros.
Não sairíamos de casa se não fosse para interagir com as pessoas ou, quando sozinhos, com os ambientes. Se vou a um café, a um cinema ou a uma biblioteca, o consumo, a audiência, a pesquisa no acervo depende(m) de o lugar encontrar-se aberto; de seus empregados, consultores e funcionários terem facultado o acesso a suas dependências; de a maquininha do cartão encontrar o sinal da rede; de o sistema de busca da biblioteca funcionar de modo eficaz; de a obra estar disponível para retirada...
Trato de obviedades, como de costume. Mas isso parece necessário, ao menos como forma de desdemonização particular por intermédio da escrita. Evidentemente, também podemos mudar de assunto, estabelecendo analogias com outras formas estamentais de dizer as coisas. 
Por exemplo, quem não se dá conta de seus privilégios socioeconômicos (não incluo os culturais, pois a lógica das finanças parece ter tomado conta das artes, sentires e pensares), adora "justificar" o seu estatuto e poder de compra sob o slogan "não tenho culpa de não ser pobre". De fato, você não pode ser "culpabilizado" por isso (o que seria uma concepção um tanto judaico-cristã, por sinal, frequentemente pautada em uma moral da recompensa e do castigo). Mas não se esqueça que desejar a morte ou o isolamento de dois ou três é negar o fato de que dependemos uns dos outros, o tempo todo.  Afora isso, não se esqueça também de que não há lugar para todos neste universo sobre a Terra, planeta-sem-água.
Possivelmente isso se deva ao alto grau de involução a que chega a nossa espécie, a oscilar entre o individualismo como mérito e benefício próprio (e das pessoas de seu estrito interesse) e o consumismo:  remédio antitédio. 
Embora alguns terráqueos se considerem a razão de ser das galáxias e se vangloriem pelo "fato" de lutar por sua "emancipação" a todo custo (financiado ou não pelos outros), vivem a condenar os mais pobres; detestam as muitas faces do "assistencialismo", disparando a fala arrogante e incoerente de quem nunca ajudou os outros e sempre contou com estágios arranjados, bolsas educacionais em geral e, claro, a constante ajuda financeira e o suporte emocional dos pais -- aqueles seres chatos e repressores que lhe deram mesada, montaram seus escritórios ou arranjaram os negócios para os filhos tão "esforçados". 
Não se trata de se sentir culpado pelas mazelas que sofrem os outros; mas de aprimorar a capacidade de olhar ao redor, para além da bolha em que determinados indivíduos insistem em permanecer. É mais fácil sentir-se independente no sistema que criamos para uso restrito, individual. 
O estado de independência não se resume às possibilidades particulares, quase sempre na forma de moeda em carro, apê, viagem, cartão de crédito, conta corrente ou poupança. Seria de grande valia perceber onde (e entre que pessoas) tal sensação mais se manifesta. 
Mesmo o estado de independência sujeita-se à comparação, esta que somos mais (ou menos) capazes de estabelecer entre nossa lida, nossa sina, nosso ponto de origem e o lugar e condições dos outros. Em muitos casos, defender a própria independência é negar e tripudiar sobre a importância dos demais (aqueles que estão no ponto de ônibus, aqueles que vão a pé sob o sol ou a chuva; aqueles que não tiveram oportunidades similares às nossas etc). 
Reconhecer as diferenças é importante. Mas pautar a nossa independência (relativa, por definição) em torno de nós mesmos é desprezar o concurso de muitos outros fatores que facilitam, ou não, encarar a própria jornada. 
Apologias em torno de si mesmo sinalizam para um modo arrogante de ser e conceber. Mas, para o percebermos é preciso mais modéstia, bem como reconhecer as múltiplas cadeias convencionais de que participamos em nome da pretensa autonomia absoluta e exclusivista.