segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Carta para Maria Viana

Querida amiga (deste ano que já orça pelo fim), 

Queria lhe contar que hoje me peguei lembrando de uma de suas frases que mais gosto de ouvir: "estudar história, escrever livros didáticos é minha maneira de fazer militância". Você repara, não é?, no nacionalismo de ocasião, no discurso segregador, na arrogância de quem nunca leu o que mais precisava... É nosso dever militar pela causa alheia. Acho que, em parte, a gente se sente como aquele que restou. O aspecto positivo é que sobrando aprendemos a fazer mais daquilo que está aí, ao alcance de tanta gente uniformizada, apassivada, contando com a mesada eterna dos pais, aqueles cujo sentido máximo na vida é ter um enfeite com pouca fala e muita perna, uma SUV blindada, modelo tanque; uma microempresa de nome e fachada imponente para exercitar o gosto de mandar em "seus" capatazes; e, em casa, tiranizar "sua" secretária; no restaurante, ostentar má-educação perante quem estaciona o "seu" carro, quem carrega bandejas, quem traz a conta, quem responde pela casa. Tudo isso para suprir a necessidade de soar imponente, segundo a lógica que a todos "invisibiliza". Você bem nota que este bilhete não passa de arremedo de missiva. Mas, saiba lá que é enriquecedor estar em sua companhia, a falar de música, literatura e jornadas a pé pelo piche. Quem disse que não podemos fazer bons amigos quando (supostamente) adultos? Esteja sempre bem. Dia desses, vou avisando, combinaremos nova rodada filosófica sem lugar para a resignação paulistana: essa gente habituada às "verdades" de alguns telejornais e revistas.