sábado, 19 de dezembro de 2015

"Deus está morto!" (Nietzsche)

Dia desses, a caminho do Detran (Armênia), reparei que não tinha algo à mão para ler. Passei por uma banca da Consolação e de lá saí com o Zaratustra. Entre uma estação e outra, retomei a jornada do eremita que desceu da montanha para se reunir à civilização. "O que é grandioso no homem é que ele seja uma ponte, e não um fim: o que pode ser amado no homem é que ele seja uma passagem e um ocaso" (Prólogo, Seção 4, p. 30). Esta é a segunda tentativa de enfrentar a obra de Friedrich Nietzsche. Da primeira vez, talvez por um problema na tradução para o Português, experimentei dificuldade para seguir adiante. Mas, agora que o semestre letivo terminou, e as escritas encomendadas tiveram fim, poderei me dedicar especialmente à leitura avulsa e à pesquisa para as aulas do semestre que virá. Um dos pressupostos de Zaratustra é de que a evolução do homem é compulsória, rumo ao "super-homem". Não sei se compreendo bem a dimensão do que ele afirma: desde o momento em que passei a estudar as ideias que revoavam no Brasil ao final do século XIX, e amparado por Walter Benjamin, Theodor Adorno e Herbert Marcuse, desconfio solenemente da concepção de Progresso, mesmo porque ela pressupõe a seleção artificial de um grupo e a consequente aniquilação da maioria. Mas essa é uma questão de menor quilate, diante do estágio teocrático que arromba as fronteiras do Congresso. Viver num país em que a maioria dos habitantes crê, teme e obedece a deus (frequentemente por medo da punição) sob a forma da recompensa; notar que o cabedal de incertos representantes de pseudo-religiões só aumenta; lidar com pessoas que passam os dias a desafiar o tédio e a agir de modo radicalmente pragmático, sinaliza para o pequeno espaço reservado à cultura em geral e à leitura em particular. Por qui, abrir um livro é ato tão ou mais revolucionário que proclamar a tese de Zaratustra.