sábado, 12 de dezembro de 2015

O dogma do progresso

Neste país, nossa inelutável imprensa - patrimonialista, aculturada e cínica - reinventa-se na arte de maquear o que houve de mais progressista por aqui, na última década e meia. Uma revisteca de circulação dita nacional (ainda que apenas 1 ou 2% dos brasileiros a leiam, efetivamente) tem feito campanha massiva contra a figura da Presidenta da República, mulher, ex-guerilheira, eleita democraticamente no ano passado. Escorada no discurso de gente mimada e fascistóide, a revista voltou à carga (vide a capa de hoje, 12 de dezembro) com o pseudo argumento de que o governo atual representa o atraso (estatizante) e o populismo. Por essa razão, a publicação também diz se orgulhar dos países vizinhos (especialmente a Argentina), que elegeram um homem do mercado, de direita e conservador. Quer dizer que ser moderno é negar o passado, fechar os olhos aos miseráveis e viver sob a égide da mera especulação financeira, no salve-se quem puder, à mercê de facínoras montados no capital? Desde quando ser um país moderno envolve a imitação dos "modelos" das nações mais "desenvolvidas" (à custa da servidão dos outros)? Esse discurso contraditório respinga na Universidade, a rolar nas mãos de tecnocratas hipócritas; adormece muitos de meus colegas e alunos; e redunda - quase sempre - em afirmações desgastadas e sem fundamento: "ah, não me venha com ideologias". Nossa elite conta com um bando de aliados que não exercem autocrítica e que arrotam ética (enquanto blindam a imgagem de seus queridinhos políticos). Infelizmente, o maior contingente a apoiar revistas e emissoras desse "quilate" são oriundos de uma parcela da classe média -- não por acaso, aquela que historicamente vive a oscilar entre a imitação (em pastiche) dos ricos e a malandragem dos menos favorecidos. Tudo em nome da ética e do progresso, é claro. Assistiremos ao desfile os nacionalistas de ocasião, amanhã? Comparecerão eles, apinhados em torno de seus interesses particulares, embrulhados com a bandeira nacional e camisetas da corrupta CBF, a imitar o modelão estadunidense em nome de um patriotismo de araque? Haverá quem se aproveite da ocasião para tirar a roupa e aparecer desnudo(a) em manchetes de jornais (que só funcionam graças ao perverso ciclo de seus anunciantes)? Definitivamente, democracia não é isso. Progresso a todo custo cheira a nazismo. Quem é de fato livre, segundo as regras do "livre" mercado? Tsc, tsc.