quarta-feira, 2 de março de 2016

A menina que molhava livros

Ora, ora: a humanidade bem que pode nos supreender, a despeito de sabermos que nada de muito novo se pode criar em nossos dias. Ontem, entrei na Martins Fontes simultaneamente com uma jovem (estudante universitária, possivelmente) que fez uma das perguntas sintomáticas de nosso tempo. Como chovesse -- e o ser, dito humano, costuma se proteger das gotas celestiais -- ela perguntou a um dos atendentes se ele disporia de um livro que a abrigasse da chuva. A princípio, julguei ter ouvido mal. Nem chovia tanto. Além disso, que mal há em apanhar umas gotas d'água, considerando que estamos sujeitos a violências muito piores, praticadas cá na Terra, mesmo? Passei um bom tempo ruminando a pergunta que a garota fez. Poderíamos pensar: "afinal, que mal há em se abrigar da chuva?" Mas qualquer resposta que eu cogitasse redundaria no mesmo: qual o papel do livro? Começo a acreditar que o ato de ler é uma demanda utópica. Quisera eu que essa jovem desinformada (símbolo de uma geração de sujeitos superficiais, desatentos e desinteressados) fizesse do livro um guarda-chuva metafófico contra intempéries outras: o desprezo pela palavra e por tudo aquilo que já foi escrito. Quanto a mim, voltei em companhia de Paul Veyne (Pão e Circo) e  Sigmund Freud (Estudos sobre a Histeria). Devidamente protegidos da chuva, claro esteja.