domingo, 6 de março de 2016

Lição de Nabokov

Em 2009 li, numa fotobiografia sobre o escritor Vladimir Nabokov, que em suas aulas inaugurais de Literatura, ministradas nos Estados Unidos, ele principiava o seu curso desta forma: "Por favor, não disfarcem ignorância com arrogância". Quem leciona, ou lecionará, certamente deparar-se-á com alunos que agem de modo nada recomendável, em termos de educação (coisa que se aprende nas boas casas) e humildade (algo que se refere à consideração pelo outro e por suas formas de atuação). Não bastasse a imagem depauperada do professor; não importasse o fato de que seu trabalho envolve a longa preparação de uma aula e a carência de boa parte de seus alunnos, volta e meia o educador precisa contar com perguntas impertinentes de estudantes sádicos (e vazios), cujo prazer maior reside na forma como dirigem petardos verbais ao mestre, preferencialmente em público. Um questiona o que falamos sobre os jesuítas, supondo que sejamos adeptos do anticristianismo (embora o credo não estivesse em questão, durante a aula); outros sorriem altivamente, enquanto questionam coisas sobre as quais sequer têm interesse. A humildade é o primeiro degrau que o bom aluno ou pesquisador deve escalar. Agora, se o professor é visto pelo aluno como um ser rebaixado; se o assunto da aula não é de seu interesse; se a docência ou a pesquisa não estão em seus planos, quais as razões para o aluno desprezar o mestre ou fingir interesse que nunca teve?