sábado, 17 de setembro de 2016

Metonímia da Carteira

Sabemos como é temerário classificar as pessoas. Mas podemos justapor atitudes assimétricas, com o fito de refletir. Coloquemos nestes termos. Há dois tipos de gente: aquelas que, de antemão, separam o bilhete único, o ingresso do cinema, o documento, as cédulas (ou as moedas) e aquelas que não o fazem. As do primeiro tipo agilizam a sua viagem, a sua entrada e acomodação no cinema, o acesso à área de embarque, o pagamento da passagem, a aquisição do produto que desejam. Assim, favorecem o fluxo da fila no ônibus, na bilheteria, no portão, no caixa. Ou seja, de alguma forma consideram a existência do coletivo. As pessoas do segundo tipo julgam-se privilegiadas por "terem chegado" lá. "Agora é minha vez: vou saborear o momento, valorizar o passe. Os outros que me esperem". O pior é que, muito frequentemente, os indivíduos da segunda categoria (e de segunda categoria, a meu ver) tomam os espaços a que pesssoas mais simples sequer têm acesso. Comumente, bons modos e bom senso não caminham juntos com a posição na escala social. Pelo contrário, muita gente de segunda classe supõe que a espera do outro as coloque, de alguma forma misteriosa, sob o patamar mais elevado -- ainda que seja no papel incrível de passageiras de ônibus ou avião, espectadoras de cinema ou clientes a comprar cebolas no mini-mercado.