terça-feira, 6 de setembro de 2016

Quadras Militantes

 
Decerto a mulher que aí vês é devota:
Fez o sinal da cruz, mal avistou a Igreja
Metros à frente, ao mendigo ajoelhado
Como de praxe, afetou vista grossa.

Certamente o garoto que aí tens é esforçado:
Fez sinal para o motorista, quando passou o ônibus
Passos distante, o gesto transformou-se em ordem
Ele que me espere: ao fim do mês tem ordenado.

Quiçá a jovem que percorre a loja é deveras feliz:
A cada gôndola uma gargalhada, entre colas e giz
Mal sabe o funcionário, o cliente e o gerente
Que motivos eles dão à moça de brim.

Por certo o homem fardado está ao lado da ordem:
Manda fechar bares e sair clientes, o dedo em riste
Não aprendeu a reconhecer seus legítimos inimigos
Em nome da lei, ele é quem cega, fura e espeta.

Não duvide, o senhor que sai do carro é refinado:
Botou o auto em frente à entrada e, indiscreto,
Ordenou pelo contrário: – Deixei ligado!
Tinha pressa o sujeito, assim muito se explica.

Dia desses, hão de se encontrar na passeata infeliz
A mulher, que ora dará um carro ao filho empenhado
A jovem risonha, ao retirar as algemas do namorado
O senhor atarefado, em nome de deus e da pátria.