quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Atende-se

Chama-se Francisco e trabalha num café. Espremido e o tempo todo em pé. Nesses anos de idas e vindas pela Consolação, nunca o vi mal humorado, malgrado o tratamento nem sempre equivalente que recebe dos fregueses (habituais) ou clientes eventuais. Chama-se Francisco e costuma tratar a todos de modo doce e afetuoso: "Tudo bem, Querido?". Já reparei: quando percebe que o consumidor precisa de mais palavras, desata a falar amenidades; e se o visitante anseia por silêncio, só se ouve o som do expresso, o abrir e fechar da portinhola, as leves pancadas da espátula no porta-pó, o tilintar da colher. Francisco pergunta, "Acúcar ou adoçante? Quer uma aguinha com gás"? Nem sempre correspondem ao tratamento que lhes dispensa, mas ele prossegue, com a implacabilidade que só a doçura permite. Obrigado, Franciscco. Amanhã passo lá no café e tento levar a sua amabilidade adiante. Esta Pauliceia, pós-moderna, a-histórica e hostil anda a precisar. Diga-me se posso lhe ofertar esse punhado de palavras, se as julgar convenientes e merecedoras do seu caráter. Cordialmente.