sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Paradoxo de Eros

Estou farto de ouvir gente dizer que o Amor é difícil ou que "ainda não o encontrou". Talvez seja incompetência de minha parte, mas acumulo impressões bem diferentes sobre o "tema". A criatura incapaz de amar procura pelo Amor ao longo de toda a vida; gira o planeta (que também pode ser sua piscina, academia de ginástica, bar, teatro, cinema, shopping center, bairro, cidade e estado). Quando se depara com o sentimento que supõe sê-lo, passa a encará-lo como passatempo: enjoa fácil, questiona, desgosta. Olha para si mesma e pergunta "para que investir?". Amor não é plano de negócios. "Não era amor", suspeita. Então, a pessoa logo transfere seu tédio e insuficiência para o outro (seja ele uma pessoa, seja ele o próprio sonho "besta" de amar). Corre mais um pouco. Ajeita o cabelo, disfarça com a roupa, cansa, retoma contatos. Topa com um suposto novo amor. "Agora sim! Tenho certeza..." Mas então o aprisiona em frascos com tampas que raramente se abrem (um para o arroz, outro para o café, outro para a amizade, outro para os afetos). Mas Amor não se administra: ele se espraia e contagia a gente e os que estão a nossa volta. Se a vida fosse uma loja de Departamentos, o Amor ocuparia um andar inteiro e se infiltraria para os demais. Isso não tem a ver com tempo; mas com intensidade. Há uma qualidade do sentir que é irredutível: se for Amor, Eros comparecerá e nos fará torcer pela vida ao máximo, também como forma de postergar a dor, o tédio, a morte. O Amor permite idealizar, desejar e sobrevalorizar as formas, sons e cheiros do outro. Faz admirar a sua sensibilidade e inteligência. Acima de tudo, deseja que aquilo tudo perdure, numa espécie de manutenção do absoluto, em escala para duplas (ou trios, conforme o caso). Amor administrável não O é. Amor não é mergulho de Narciso (aquele de Ovídio), cego para os outros; não é calcular o tempo que haverá para o que vem antes ou mais tarde. Frases como "temos todo o tempo do mundo" são pseudo argumentos de Jacu. O amor tem pressa na aparente calmaria e demanda mais tempo que a vida ordinária tem a oferecer. Não pode ser nivelado com contas a pagar, correspondências a enviar, mensagens a responder. Não possuímos o amor, nem ele nos detém. Ele não se entende bem com contabilidades, ou planejamentos que não envolvam uma sequência infinita de instantes preenchidos pelo máximo. Ele está acima de nós, pois é condição de uma existência menos murcha. É mais forte que nossa (des)crença em divindades, espíritos ou convicções. Não se tira diploma para (des)amar. Não há especialização na "área" (embora haja aqueles que confundam produtividade com qualidade).  Já pensou? A criatura pode ter encontrado o amor em mais de uma ocasião e o "deixou" passar. Mas isso ainda soa arrogante. É necessário humildade e energia para sentimentos maiores.