sexta-feira, 30 de junho de 2017

EGÃO

Em curso, a histeria coletiva – manifesta no uivo doído do desabrigado que perdeu razão, casa e a dignidade do olhar alheio.
Os sinais persistem, desde tempos imemoriais, na autoisenção de homens bons (hoje, “de bem”), posicionados mais acima da massa, devido à “origem”, “mérito”, “estudo” ou “empenho” – infensos à moral, à ética e às leis; mas, especialmente, incapazes de solidariedade. O histérico só fala dos outros em chave de comparação negativa.
Sintoma de grupo, o paradoxo da histeria está em se alimentar do exacerbado individualismo que finge justificar o “salve-se-quem-puder”, nas palavras duras dos bocas-moles que Deus e o Mercado supostamente elegeram.
Ela também reside no “uma ajuda, por favor” – expressão “naturalmente” etiquetada à fome e à sede daqueles que não fecham a conta do capital: mercadoria vencida, saldo negativo, expurgo que a “livre-iniciativa” celebra com chavões do tipo “mas eu venci na vida”.
A histeria se manifesta nos berros dos neofascistas, com palanque, senso comum e plateia (o sujeito que lamenta o horror do nazismo pode ser o mesmo a apoiá-los). O megaindivíduo, que critica as violências do Tribunal do Santo Ofício, talvez seja o mesmo a recriminar e xingar as pessoas “menos comportadas”, “desavergonhadas” ou de outras condições sexuais.
Histeria coletiva. Seus pacientes, a céu aberto, estão a espancar buzinas, invadir as faixas, desprezar as noções básicas de civilidade. Trotam nas calçadas, a consumir desenfreadamente para mais uma bebedeira heroicizar.
Sobremodo arrogantes, os não-internados dispensam terapêutica. Incapazes de autoexame, clamam por escuta e cuidado em gargalhadas repentinas, inautênticas e sem razão.

(Piratininga, 28 de junho de 2017 d.C.)