sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Arte de Acolher


"War, children, it's just a shot away

It's just a shot away" (The Rolling Stones)



"Dar guarida" é expressão de alguma beleza e sentido, mas desgastada pelo tempo que, dentre outras coisas, tornou-nos menores, mais exigentes e incertos termos piegas. Vá lá, cogitemos em um sinônimo atualíssimo... Pronto: "acolher". Está bem, assim? Muito obrigado. O senhor é muy gentil.
Afora a questão semântica, pense cá, Quando eu lecionava na Fatec São Caetano do Sul, costumava dizer aos alunos (e colegas), dentro e fora da sala de aula, que acolher os estudantes é tarefa primordial da instituição de ensino dito superior.
Disse e repeti isso ao longo de cinco anos (ou dez semestres), três, quatro vezes por semana, para todas as turmas (ADS, Jogos, Secretariado e Segurança da Informação), onde vendia barato aulas de Língua Portuguesa (I, II e V), Comunicação (I e II) e Ficção Interativa. 
A partir de abril de 2014, percebi que "dar guarida" continuava sendo uma questão importante, também na universidade. Persisti em dizer o mesmo, de outras formas. Há que se investir parte do nosso tempo e energia na acolhida aos estudantes. 
Porventura, alguns verão nisso atitude brega e demagógica; outros, populismo rasteiro e antiacadêmico. Pouco importa. Há que se abrigar os alunos: não podemos nos furtar a servir como eventual referência para eles. Nisso não entra pretensão; apenas obviedade. 
De nada adianta pensar no que fazer, quando eles deixarem a universidade. Acenar de longe é dizer adeus duas vezes. Não confundamos sala de aula com doutrinação mercadológica. 
Que eles vejam, em nossa companhia, oportunidade de refúgio ao senso comum e à padronização. É bem verdade que corremos o risco de não sermos levados a sério, ou que confundam o nosso papel de professor/orientador. Será a oportunidade de dizermos aos nossos alunos: discernimento também é saldo da aprendizagem.

Epístola para Bel

Salut, dear friend!

Salvo engano desta parte, não nos falamos há cerca de um ano: muito tempo de ausência e espera, se considerarmos os longos bate-papos pseudofilosóficos e psicanalíticos (vulgos “desabafos”) que alternávamos nos arredores do Campus!
Você está bem, né?
Digo... apesar de. Esse lance de que me falou, de que nosso país anda ácido e a situação tem afetado a saúde da gente. Pois é, ora se não (putz, agora me dei conta de que empreguei uma interjeição com potencial polemista…).
Oh, my dear, vamos pensar em algo para você se sentir melhor ainda? Digo já. Almoço, dia desses, pretexto para colóquio com café. Da outra vez, tomamos aquele orgânico na Nestor Pestana. Local exclusivo, já que não voltei lá (será o lugar para futura prosa, quando estiver por cá).
Antecipei há minutos, via whatsApp, o que ora registro, lavro, REALÇO em “epístola informal” (seria um paradoxo, segundo os tratados de Ars Dictaminis da Idade Média e além): nossos diálogos fazem falta. Acho, mesmo, que a vida sem determinadas(os) amigas(os) é manca (penso naquele verbo bom do Francês, “manquer”). Se bem que Eugênia era coxa e nem por isso deixou de chamar a atenção do Brás Cubas…
Conte-me, lá, as suas novas, ainda que sejam breves jornadas recentes que experenciou. Da banda de cá, sede de narrativa alheia. Serei fuxiqueiro? Tese para acordar, inclusive, os bois. Continua fazendo pães? Como estão as ruas da Pompeia? (estivéssemos em outro tempo e isso seria questão tratada entre missivistas helenistas, hã?). E o estádio do Pacaembu? Continuará do povo?
Olha que curioso: “hã” me fez lembrar que você inventou a alcunha “Jã”, quando discutíamos questões mais extensas, via e-mail. Bons tempos! Mantenhamos a história em curso, afinal ela não morre. Prova disso é a possibilidade de cruzar micro-histórias, feitas de gente miúda, feito nós.
Aceite, lá, essas palavrinhas de cont(r)ato: Quiçá equivalham a energia e meia. E se tiver que mirar o horizonte, meio nublado pelo vapor vítreo, faça e pronto! Dentre outras coisas, você me ensinou que “a lágrima é aguinha santa”.

Força, resistência e beijo, querida amiga.

JP (29.IX.2017 d.C.)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Emulatio

Toda grande obra, ou mesmo toda obra que impressiona, funciona como uma obra desejada, mas incompleta e como que perdida, porque eu não a fiz eu mesmo e é preciso reencontrá-la, refazendo-a; escrever é querer reescrever: quero juntar-me ativamente ao que é belo, no entanto, me falta, me é necessário” [Roland Barthes].1







O homem, que aí vês, deve orçar pelos quarenta e poucos anos. Diz-nos a barba que branqueja, a fronte que avança, o cabelo que migra de um matiz a outro. Atenta para a roupa com que se reveste, encontrada em alguma loja de departamentos. Sentou-se, não fez nem um minuto, e já mira a avenida como quem acaba de conceber nova ideia. Leva ao colo uma espécie de maleta revestida com epiderme bovina, dessas que os médicos de outrora carregavam; ou pasta semi executiva, comum a bacharéis, advogados – que se veem ainda hoje, nas imediações do Largo – que de se franciscano não tem muito, haja vista o discurso empolado dos doutores, a indumentária com fumos de fidalguia anacrônica, o modo ora lento, ora agitado, de deambular. Para descobrir o objeto e o que nele vai, há que devassá-lo. Ao narrador, permite-se metamorfosear-se em lepidóptero, relativizar a verossimilhança e sugerir que em voo, por demais habilidoso, o inseto ultrapassasse barreira humana (braços cruzados), frincha do zíper e alça, e lá adentrasse. Já cá estamos. De um lado, Agatha Christie; doutra banda, José Saramago. Mais adiante, um estojo de lápis, a seguir este outro, para os óculos; dois molhos de chave no bolso lateral; na divisória, celular; no outro compartimento, carteira. Por detrás dos livros, façamos reparo, uma relação de nomes e códigos. A hipótese é outra: será professor – pessoa que lê por prazer e ofício? Mas, dizia dos olhos. De súbito, a visão abandona as ruas e se fixa, vez ou outra, na mulher que rascunha mentalmente. Imagina que ela esteja a sua frente e os pontos de vista se cruzem, até o relativo pudor desviá-los. Sentados defronte, a catraca de permeio, cores que uma viu, o outro percebeu; e o que este disfarçou, aquela sorriu. Decodificação fisiológica, atração pelas formas e um desejo, porventura mútuo, de som. (continua)



1 A Preparação do Romance, Vol. II. Tradução: Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 14 (grifos do autor).

sábado, 23 de setembro de 2017

O Urso

Sábado, 23 de setembro de 2017 d.C., 11h01 da manhã.
Minha filha e eu nos encontramos na catraca da São Bento, rumo à Ladeira Porto Geral, dobra a esquerda, 25 de Março, pula uma rua, loja de brinquedos pequenos e máximos.
O trajeto é entrecortado por gente de todas as etnias, vozes, roupas e jeitos. Vamos nós, eu mais ansioso que ela – mais curiosa (“O que é, pai? Ahhh…Não vale!”). Digo, sorridente: “Acho que é...É aqui!”. Adentramos e eu, ao longe, tinha avistado uns bichos grandes na parede da esquerda. Daqui a pouco é a vez dela, boquiaberta e, agora sim: tão ou mais sorridente que o pai nerd.
Driblando gentes, vamos nós, a tatear pelúcias de vária textura. Ela logo se encanta por um big urso, virado em cabeça. Tira do nicho, abraça como se fosse um velho amigo nosso. Mas, assim não era possível: agora driblávamos parados. Paradoxo que só o consumismo de sábado permite.
Deixamos a muvuca e nos posicionamos em um ângulo de, mais ou menos, 45 graus. Segundo estágio: raciocínio (“Pai, tava pensando, se levar o branco, suja muito, né?”). Voltamos à trincheira inicial, logo embaixo das prateleiras com mais de metro de altura.
Então miramos um mesmo urso. Marrom escuro, com cara de bonzinho, vá lá, vocês entendem o que quero dizer... O vendedor (“eu me chamo Leo”) se oferece para ajudar. Retira esse. Minha filha cogita levar o irmão, cor de rosa choque. (Intimamente, torço para que não). E ela fica com aquele de que mais gostei, também.
Digo a ela o que aqui registro: estava devendo um urso de pelúcia grande desde que você era criança.
De lá, subimos até a São Bento (acesso da mesma Ladeira), saímos no Largo e almoçamos no Bom Gosto. Tiro o ursão da sacola e o posiciono para almoçar conosco. O atendente gargalha e sugere que, para ele (o urso marrom com cara de bonzinho) foi bom respirar um pouco, fora da sacola plástica. Rimos todos. Tirei até foto do bichão, antes que ele se atracasse ao copo e ao prato (fazia calor e ele deveria estar com fome, pois não hibernava).
Conversamos sobre Deus, dogma, murmúrio sobre os militares no Brasil entreguista e corrupto. Também discutimos romances pós-utópicos. Ela me conta mais detalhes da sua casa nova, que ainda não conheci. De lá, seguimos pela rua São Bento até a Saraiva. Topamos com um livro do George R. R. Martin de capa dura, em promoção. Como havíamos mencionado Saramago, dou-lhe O Evangelho Segundo Jesus Cristo, ao que ela se indaga: “Pai, você acha que leio?”, enquanto folheia as páginas. Respondo que sim, a título de entusiasmo: Se você passar por esse, aguenta qualquer um dele. Ah, bem, tem o Memorial do Convento, que é mais difícil…
Na rua São Bento, estamos a trinta passos do Largo do Patriarca. Proponho: Estamos no meio entre a Sé e o Anhangabaú. Por onde vamos? Ela responde, taxativamente e ensacolada: “Onde não tiver sol”. Subimos a rua Direita, viramos à direita, de novo, antes da praça (percorremos Senador Feijó, Benjamin Constant etc).
Como o café estivesse fechado (e ela nem poderia tomar, mesmo), recuamos. Passamos na Livraria da Unesp. Saio de lá com os Fragmentos de Friedrich Schlegel (que é excelente uso em aulas sobre Álvares de Azevedo, Byron e Musset).
Fecha a livraria. Descemos até a esquina seguinte: Uma água sem gás e uma com gás, por favor. Mortos de sede. Minha filha comenta a quantidade de sacolas a levar. Vamos para a Sé, em busca de uma saída aberta. Lamentamos a condição dos miseráveis e a cegueira generalizada. 
Ela ultrapassa a catraca com uma parte das coisas; revezamento de mochila e sacola. Despedida.
Espero que o urso goste de sua nova morada. Lá ele será amigo da gata Alice (que não é de pelúcia) e descansará no sofá, feito rei.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Copy Left Letter to Ricardo Baitz

Copy Left Letter to Ricardo Baitz


Pauliceia, 22 de setembro de 2017, d.C.


O JUIZ – Esperai! Esperai a sentença […] Vamos ver. De-vo-ta-men-to… Pu-ri-fi-ca-ção! Adiante!” (ANDRADE, aquele, Apud BAITZ, este).1


Caríssimo amigo,


Hoje sucedeu uma jornada de muitos (e) bons encontros: um simpático taxista, de manhã; um grupo de alunas do curso de Editoração2, que me falaram sobre o blog da Estante Virtual; o pessoal da cantina das Letras3; um café com um grande machadiano4, para ajustar detalhes sobre uma aula que darei aos alunos dele, por lá, sobre “Teoria do Medalhão” (Machado); uma conversa sobre Umberto Eco (cultura) e Murray Schafer (paisagem sonora) com a capitã5 do CELLP; um pedaço da aula de uma colega da UERJ6, convidada por uma grande estudiosa do Romantismo7; velhos e novos colegas/amigos8, durante uma mesa sobre literatura lusófona e, minutos antes do evento, o evento outro, que foi revê-lo e ganhar a segunda edição do seu belo ensaio9 sobre Oswald, aquele.
Como lhe antecipei, via mensagem celularística, devorei os paratextos todos – prefácios (de editor, autor e analista institucional), posfácio(s), direito de reprodução de um exemplar na forma impressa, ilustrações, diagramação, tipo de papel e fonte. Isso tudo grifado e anotado à margem (fosse ela direita, esquerda ou terceira10): desde que vendi o carro, tenho aproveitado melhor as viagens de ônibus.
Falo sobre o livro (melhormente, do teor que vai nele ou ele aporta). Começo pelas orelhas: a doçura de uma, o teor didático da seguinte. Menciono o formato inusitado (e, nesse sentido, oswaldiano/baitziano do livro): 21,1 X 14,8cm.
O que de melhor lá colhi sobre Oswald: “sempre foi um leitor contumaz e um homem de campo” (p. 13), o que me lembra o método de Guimarães Rosa de anotar em cadernetas para compor contos e Grande Sertão: Veredas; o papel de um “verdadeiro editor”, qual seja, “trazer a público bons escritores e suas ideias” (p. 14). A conclusão de que, ainda hoje, “o escritor realiza um trabalho intelectual, e trabalho intelectual – ou imaterial – não é percebido como algo sério em uma sociedade que privilegia o trabalho material” (p. 18); a intenção de Oswald em reformular a ABL, de maneira a justapor autores consagrados e novatos – no que o paulistano arejaria o ar catedrático e rotineiro dos chás com pompa (p. 19); a sua aproximação com Oswald, ao questionar a grade, o método de ensino e a suposta crença na infalibilidade (e legitimidade) das leis que um e outro (des)aprenderam em cursos de Direito (p. 24); a suposição, tomada de “um filósofo francês” de que “a análise mata” (p. 25). Aqui, uma provocação: no campo da Psicanálise, é a análise que, em muitos casos, permite surgir um novo sujeito, curado pela própria palavra, colocada sob a lupa do interlocutor (tão neurótico quanto o falante), diria Freud. No campo das Letras, a análise tanto pode salvar quanto sepultar uma obra... Para voltar ao filósofo a que se refere (Lourau? Não o identifiquei), que tipo de morte a análise implica? Questão a mais ver.
Continuando. Agradeço-lhe pela dupla menção a este “amigo formado em Letras”. [É curioso… como o diálogo se estendesse para além da sessão de comunicações, de hoje à tarde, uma historiadora (que cursa uma disciplina optativa comigo) perguntou-me: “você é daqui?”. – Sim, sim, respondi --  Esse negócio de manter um pé em cada unidade é muito interessante…]
(De volta ao livro, perdão) A seguir, sua carta “desaforada” para aquela comissão editorial, que não aceitou o seu artigo [“O Método de Oswald de Andrade”, agora reeditado] e, como também lhe disse, na ocasião: eles é que perderam. Ganhou a Revista FronteiraZ, da PUCSP – veja, só, na mesma casa onde você se (de)formou em Direito, com direito à licença da OAB e, a meu ver, o fortalecimento (por contraponto) da sua concepção dialética materialista e histórica. Você tem razão, outra vez: “o alcance [das revistas eletrônicas] é mundial, mas o público leitor é ínfimo” (p. 29).
Como havia lido o seu artigo original, e seguindo o seu conselho, deixei para relê-lo amanhã. Estou no Posfácio e deparo com esse depoimento sentido do Oswald: “O que desconcertava meus adversários é que minha literatura fugia ao padrão cretino então dominante. E chamavam isso de ‘piada’.” (p. 73). Veja, só, esse tem sido um dos temas para onde convergem minhas energias "de" ler e escrever. Contrapus, recentemente, o poema-piada de Oswald de Andrade, Juó Bananére, Emílio de Menezes, Murilo Mendes (do início, mais corajoso e irreverente) à postura “boa-mocista”, carola, nacionalista, que viu “Barroco” em Minas, supondo movimento de avant-garde no século XVIII, e foi “papa-sarau” de gente graúda daquela turma capitaneada por Mário (adotada e institucionalizada pela própria USP).
Minha admiração ao Oswald começou em meados de 1995, repare, dois anos após você tomar contato com ele (1993)! Mas falo, ainda, sobre as citações do seu livro, porque agora chega a ocasião de um pretenso gran finale…
Quantas bancas compusemos? Respondo já: 26 (até que os “donos” institucionais e das gentes, incomodados com o fato de que um pessoalzinho de “Humanas” tivesse mais respaldo e credibilidade que quaisquer muitos, implodissem o sistema [mais ou menos “democrático”] que eles mesmos haviam formulado. Motivo para mais rir alto, como diria o narrador Riobaldo). Quem quiser faça a conta das mesas-redondas que enquadramos, dos alunos que aconselhamos e das conversas que construímos – com direito a perguntas de ida e vinda, de uma sala a outra, no pavimento “inferior”.
A exemplo de Oswald, enfrentamos muitas touradas com a mesma capa (ou toga, conforme o grau de solenidade), com a vantagem (nossa) de tê-las realizado em parceria (e não isolados, contra um mundo de pseudoliteratos, como o foi o caso dele, oh, Oswald).
Mas, pera aí… Estou retardando o anunciado gran finale! Aí vai:
Em muitas bancas, disse a você e seus orientandos que percebia, na escrita deles, a dicção do professor. Agora, volto a lhe dizer (retificando a nota n. 19, p. 29) que na sua fala há muito da voz oswaldiana, mestre de todos nós, anti-institucionais. Não sei se equivale a um elogio, mesmo porque transparece, desde sempre, feito constatação. Mas antes que você me contradiga, com a hipótese de que sujeito e objeto são categorias estanques e bem pouco interativas (já que um pressupõe emancipação de si e inferiorização do que reifica e congela), digo melhor.
Assim: lendo Ricardo Baitz ouço Oswald de Andrade. Será honesto e, porventura, facultará o movimento perpétuo entre o seu presente e o dele, sem esquecer dos pretéritos, que os subjazem, e o devir.


Um abraço fraterno.


J.P.C.
1Paradoxal o uso de “Adiante”. Da boca de um juiz medíocre para o pensar de quem contesta o legalismo.
2A mãe de uma das alunas viu uma entrevista minha sobre Agatha Christie, no blog.
3Não menciono seus nomes por não sabê-los todos.
4Hélio de Seixas Guimarães.
5Marinês (forma pela qual a conheço).
6Andréa Sirihal Werkema.
7Cilaine Alves Cunha.
8Daiane Cristina Pereira, José Carvalho Vanzelli, Kouassi Loukou Maurice, Penélope e Ivânia.
9Ricardo Baitz. O método de Oswald de Andrade. 2a ed. São Paulo; Editora Tiragem Livre, 2017, 96p. ISBN: 978-85-92900-01-4.
10Aludo ao notável conto “A Terceira Margem do Rio”, de João Guimarães Rosa.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Como Buscar um Livro

1. Encomende o exemplar recomendado por pessoa de confiança (seja ela de osso, seja de papel)
2. Certifique-se de que há bons cafés perto do sebo (seja para tomar um coado, seja um expresso)
3. Cumprimente as(os) antendentes e, de pronto, diga o nome do autor e/ou título do volume
4. Não deixe a loja sem consultar as demais sessões
5. Carregue o livro com a capa virada para a multidão
6. Peça um café para saborear o novo artefato duplamente
7. Compartilhe a mais nova aquisição com leitores em potencial
8. De volta à casa, cheire, manuseie, percorra capas, lombada e orelhas com os dedos
9. Folheie o interior: ficha catalográfica, sumário e colofão
10. Deposite-o na estante ao lado de outras obras do mesmo autor (ou de seus rivais teóricos)

domingo, 10 de setembro de 2017

Ut Pictura Poesis

Chamava-se Juliete Roinat Chauvin. Muitas vezes, quando visitava meus avós em Garibaldi, descia até a "cave" (porão) e me postava silenciosamente ao lado dela, enquanto pintava. Ninguém lá ia: um local úmido forrado de brita. De lá escutávamos os passos da família, as imprecações de quem estava a jogar cartas com o marido, Jean Alphonse. Vestida com o avental, cheio de cores difusas, Juliete sorria de soslaio, ajeitava os óculos e, caso eu perguntasse, explicava algumas técnicas de autodidata ("assim a gente faz o rio", "assim a gente faz as folhas das árvores", "este aqui no barco, quem é?"). Todos sabíamos: quando a voz de minha avó não se fazia ouvir, ou ela estava dormindo, ou na "cave", a representar retratos, equipada de tubos de tinta, paleta de madeira, pinceis de vário tamanho, removedor e pote d'água. Naqueles instantes -- longe da azáfama da cozinha, depois de recolher as migalhas da mesa de jantar com o verso das mãos, lavar e enxugar a louça, após colher vagens, ervas, cenouras e frutas no quintal -- a desejada solitude. Minha avó era calmaria e atividade em uma só figura: doce e compenetrada. Falava baixo, murmurava explicações, métodos do seu pintar. Era um neto pequenino; não havia lido Horácio, nem sabia que as escolas de pintores se classificavam de acordo com as épocas, estilos, gêneros, técnicas, dimensões, materiais empregados; tampouco o que era decoro. Eram momentos que não saberia exprimir, quando criança; que não sou capaz de versificar ou traduzir, enquanto pretenso adulto. Mas chamava-se Juliete Roinat Chauvin: Juliete, para Jean Alphonse; "mamã", para os filhos; "memê", para os netos. E tinha dois gatos malhados que lhe faziam máxima companhia: Minu e Minete. É bem provável que, em sua mudez, os felinos soubessem desde sempre o que não se pode representar em verbo e imagem. Quem contornasse a casa e mirasse as janelinhas do porão, avistaria uma senhora magra, de óculos quadrados e coque a apanhar os cabelos grisalhos bem no alto, em vestidos floridos e o mesmo avental, a tocar a tela com o pincel, pontilhando-a de árvores, estradas, charretes, rios, montanhas, pessoas, sois e luares. Chamava-se Juliete Roinat Chauvin e era minha avó. Pintava quadros com que presenteava a família -- alguns deles, há tempos, comigo. Não sou pintor, nem sei avaliar bem as artes plásticas, mas são meus quadros prediletos. Talvez emblemas a celebrar os vínculos que não explicitei, quando virei adolescente, o ego inflou e as palavras encolheram. Modos de carregar a minha avó, Jean Alphonse, tonton Raymond, tonton Claude, tia Nadi, tonton Robert, tia Miriam, tia Marta, os primos Kika, André, Dani e Filipe, meu irmão, meus pais, Pierre e Maria, a cadelinha "Pití", os jogos de bocha, as conversas filosóficas no "cabanon" (antigo galinheiro improvisado em reduto para meu tio Raymond), o ruído de cascalhos sob os pés de chinelos, a visita das borboletas às flores, os muros de pedra e cimento (que "ajudei" a mexer); as árvores que auxiliei a plantar; os legumes que colhi com minha tia; a lenha que busquei; os cadarços que aprendi a amarrar; os modos de segurar os talheres; o harmônio, onde assistia meus avós e visitas tocarem músicas lá de longe; os jornais da França para meu avô, que eu lia de curioso; o jogo de palavras cruzadas, disputados alegremente pelos tios, equipados com o Petit Larousse; os vinis da vitrola organizados na discoteca da sala (Verdi, Mozart, Beethoven e que tais), as poltronas amarela e turquesa, os sofás, os quadros na parede; o café, às seis da manhã, com generosas "tartines" recheadas de mel, geleia e manteiga -- o café, puro ou com leite, servido às seis da manhã por Juliete. Nos momentos em que ela mais desejava estar só, eu aparecia a fazer pequenas confidências e constatar o maior silêncio. Terá sido ela que me ensinou a apreciar a quietude, o sussurro? a contemplar as coisas com vagar e ficar na sombra, enquanto o alarde pisa o piche e as luzes inundam as janelas, os carros, as roupas de vinil, a maquiagem carregada? Diga lá que nome isso tem. Merci, "memê", et salut!

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Circo X Barbárie

Sonhei que conversava com uma colega imaginária (mas de postura bem verossímil), num gabinete, em defesa dos funcionários da instituição; que a também professora, mais graduada na estrutura hierárquica, desqualificava o relato que eu fizera, supondo parcialidade.
Eu a contestava reafirmando que, sim, já havia conversado tanto com os funcionários quanto com outra professora (graduada), para resolver a questão. A douta hierarquizada, depois de se certificar (pela descrição) de quem era a terceira colega, disparou o segundo petardo: não gosto dela.
De súbito, a conversa – que era uma entrevista a portas fechadas, separando os debatedores por uma mesa estreita – tornou-se assembleia. Agora eu estava no fundo de uma pequena sala, com várias pessoas nas demais carteiras, e o que era diálogo tenso virou discussão.
Z e eu trocávamos farpas, até que precisei proclamar que era “de esquerda” (o que possivelmente explicaria o fato, ainda que em ambiente onírico, de eu defender outra categoria, que não a “minha”). No sonho, Z fez cara de desimportância, diante dessa fala inflamada.
Mas, então, a sala já era bem maior. De repente, para além das cadeiras, numa espécie de coxia ampliada, havia um monte de estudantes a carregar um jornal institucional e equipamentos de filmagem. Seis deles acenavam de longe: convite para gravar uma entrevista. Cumprimentei um ex-aluno (dos tempos de colégio ou Fatec, não me recordo) e os outros, dizendo “muito prazer”.
Acordei.
Qual seria o teor da entrevista? Que perguntas seriam enunciadas?
Acordemos...
...Ainda que seja para reiterar o óbvio: num pseudopaís em que quase todos viram a cara para os menos favorecidos, o papel do Estado é atuar justamente onde quase ninguém tem culhão nem vontade. Desde quando modernizar é excluir?

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Divórcio

Enviei, há pouco, uma cópia autenticada da certidão de casamento para a (ex) mulher – que já foi parte e contraparte – em que consta a averbação de nosso famigerado divórcio (julgado, aprovado e mandado registrar por um juiz desta Pauliceia). Doze anos após a Separação dita consensual (tão cordial que me levou a conhecer diferentes tribunais da vila de Piratininga, durante um ano e meio), aceito o conselho da advogada (“envie a cópia”) e saio dignamente desse pedaço estranho de historieta. Somos tão poucos e pequenos; mas as sensações podem ser maiores.
Coisa de somenos, bem o sei. Mas se me puser a contar o que sucedeu até o despacho da correspondência, via correio, talvez concordem que vivemos epopeias diariamente. Que os olhos do (a) leitor (a) suportem o relato e me digam, por obséquio, se os eventos a seguir podem ser considerados sintomáticos.
Após o equívoco cometido pelo cartório de Garibaldi (em uma transação que se esticou por semanas), enfim a certidão averbada chegou. Hoje, após o singelo café com pão, resolvi uma série de coisas em casa por e-mail. Pouco depois das 11h, saí para encontrar um amigo, dos tempos de graduação, no BH Lanches. No trajeto, fiz duas cópias autenticadas do documento (cartório da Frei Caneca), descobri outra agência fechada dos correios (Shopping Frei Caneca), postei um voucher para Dona Maria (agência da Matias Aires), retornei à Augusta, compartilhei o teor da certidão com o amigo, com quem também gargalhei, acompanhei-o até a Consolação (estação da Paulista), desci novamente em direção à agência (Matias Aires) e solicitei envelope. Balcão ocupado; segui para outro que dispusesse de caneta. A tinta falhou; voltei ao outro balcão, preenchi os campos Remetente e Destinatário e retornei ao caixa (número 9), que registrou o documento, cobrou o pagamento e desejou “bom fim de semana”.
No regresso ao castelo de 40 metros quadrados, mudei a rota de costume. Desci pela Bela Cintra, virei à esquerda na Dona Antônia de Queirós, à direita na Consolação; parei para tirar uma foto de ângulo raro. Na Maria Antônia, a título de celebração, comprei um sapato novo; então, driblei a alunada do Mackenzie e, dois lances de escada depois, sentei-me em frente ao note para escrever.
Os amigos efetivos talvez me dissessem que não haveria necessidade (nem mérito da outra parte) que justificasse o trabalho que tive para enviar a cópia autenticada da certidão – ressalva com a qual eu certamente concordaria (a solidariedade dos amigos faz um bem danado à gente). Mas, sempre que possível, exerço a manutenção das diferenças (quando o caso exige) ou da solidariedade (quando a questão demanda).
Quanto mais tripudiarem, mais civilizado serei; quanto mais odiarem, mais indiferente serei. Lição para nulo aprender alheio, mas re-estabelece a plataforma onde me coloquei, favorece o diálogo com as árvores mais altivas, em meio ao asfalto bruto, e sugere alguma competência deste pseudocronista, orgulhoso por reafirmar que ele caminha melhor sobre as próprias pernas. Certos nomes vêm do mar. Que retornem a ele, também. 

Planeta Terra, 1o de setembro de 2017 d.C., às 15h33.