sábado, 25 de novembro de 2017

Do Porta-Lápis

No estojo, que imita couro, vão três lápis de corpo e cor que não se confundem com as quatro canetas que lá estão -- todos para sobre muito tentar falar. Nem falta a borracha, que suprime, a régua que mensura, um par de clipes a prender rascunhos teus à palavra já impressa. 
Procurando mais um tanto, toparás com o apontador, que afina os lápis, a dizerem de mais perto o que o sujeito mal retém. Escrever é abrir comportas. Melhor fica se à ponta estreita do grafite corresponder proporcional agudeza. 
Retira do estojo a régua, que também é apoiar, sublinhar e cortar; mantém a borracha a distância conveniente; sublinha certos dizeres em variada cor. 
Porventura alargará a mancha, ultrapassarás as margens da palavra, precisarás o gênero, discorrerás sobre a matéria que o volume aporta, dirá mais: sobre a época em que foi dado a público e o estilo que emula. 
Findo o trabalho de escrever -- arte, ofício e engenho --, bota tudo no recipiente, corre o zíper e reposiciona o estojo ao alcance dos livros e mãos: livres para eles percorrer outra vez, assinalar, recriar. 
Repete, sem cessar.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Inexprimível?

Se quiseres definir "amor", à primeira dificuldade dirás: "ah, não se explica; só se sente". Repara que, nem por isso, os sábios deixaram de descrever o aspecto de quem o experimenta, tampouco dissecar seus múltiplos sintomas. Empédocles disse que o amor soma; o ódio subtrai. Afirmava o Kama Sutra que o sexo dispensa o amor; mas não o contrário. Nos Cânticos de Salomão, marido e esposa ressentem a união e a despedida; Nos sonetos líricos, Camões emula Petrarca, para formular o afeto sob a forma de antíteses. No segundo volume de Dom Quixote, o cavaleiro observa a Sancho Pança que amor e poder são as "duas maiores forças" sobre a Terra. Antônio Vieira explicou, no "Sermão do Mandato" (1670) que o amor "naturalmente une; mas se é excessivo, divide", no que reverberou Platão e Santo Agostinho. O excesso redunda em morte. O ciúme matou o amor que Bentinho Santiago talvez nutrisse por Capitu, no que imitou o gesto de Otelo, três séculos antes. Um narrador de Lima Barreto assegurou que "a doçura é a maior força da Terra". Sigmund Freud disse, em "Mal estar da Civilização", que o custo da civilização era a contenção dos desejos. Dave Gahan suplicou, em "Stripped", que a pessoa se afastasse da cidade, desnudasse "até os ossos" e "cantasse apenas para ele". Bono Vox disse, em "Bad", que se pudesse, se conseguisse, deixaria as coisas seguirem outro rumo. Em "Clocks", Chris Martin indefine a mulher ("You are") -- forma bem mais inteligente que relatar minudências chorosas e pueris, a exemplo de uma penca de cantores ditos "sertanejos universitários". Quanto a mim, disse incertas vezes que água demais afoga; terra demais resseca. Convenhamos, rediscutir o tópico não mudará as nossas vidas, mas talvez valha como exercício mental.      

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

It's not a garbage!

Conheci o som da banda Garbage no final da década de 1990. Àquela altura, eles haviam lançado dois álbuns (Garbage, de 1995; 2.0, de 1998) e eu ficara bastante impressionado com a qualidade do pop rock/alternativo/hip hop que eles produziam.
De tempos em tempos, boto os CDs para rodar ou acesso a alguns de seus clipes no YouTube. Decorridos alguns meses, a sensação de escutar “Stupid Girl”, “The trick is to keep breathing” ou “Cup of Coffee” (esta, do Beautiful Garbage) é ainda impactante. Afora as belas melodias e complexos arranjos do grupo, a belíssima voz de Shirley Manson e a postura da banda, sob o palco, transborda entusiasmo.
Não costumo esperar pela semana final do ano, para percorrer uma viagem interior. Tenho agido dessa forma há muito tempo (salvo engano, desde os vinte e poucos…). Significa que começo a prestar mais atenção a mim mesmo, às coisas que disse (ou calei) e as atitudes que tomei ou suspendi em novembro – espécie de "mês quinta-feira", se o ano se resumisse a uma semana tida por atarefada e útil.
Na imersão deste 2017, topei com versões raras de diversas bandas, conheci grupos novos, recordei letras de algumas músicas e me deparei com um livrão que traz a biografia do Garbage, escrita em parceria com o jornalista Jason Cohen. Estiloso, em capa dura, e recheado de fotos e depoimentos dos meninos grandes, a biografia começa da melhor forma: a mãe de Douglas Erikson, além de Shirley Manson, “Duke” Erikson, Steve Marker e Butch Vig, registra(m) suas impressões sobre a banda e seu papel nela. 


A chegada do livro, hoje pela manhã, fez-me celebrar o dia com maior alegria ainda. Suspeito que deixarei de fazer muito do que estava em meio (anotações nos TCCs de meus orientandos, leitura de uma tese sobre Guimarães Rosa, escrita de um ensaio sobre Saramago, interpretação de algumas linhas do Garbage no baixo etc), afinal “it’s always Garbage time”!