domingo, 31 de dezembro de 2017

Durante uma xícara de café (em 31 de dezembro de 2017 d.C).

Quem vai circularmente de um ponto para o mesmo ponto, 
quanto mais se aparta dele tanto mais se chega para ele 
(Antônio Vieira, "Sermão de Quarta-Feira de Cinza", 1672).


A million miles between us / Planets crashing to dust 
(Garbage, "Cup of Coffee", 2001).



Relembra-te de que és falível. 

De que sabes, talvez mais, (mas, provavelmente, menos) que outrem; e de que a largueza, altura ou profundidade do que manipula, deduz ou cogitas -- graças a teu (i)limitado repertório -- não invalida o alheio, nem te faz ente superior (nem inferior). 

Pergunta-te se és homem, gente, animal ou mercadoria. 

O que efetivamente apreendeste? Quanto sabes dizer, contar e interpretar? Como mensuras o que (como e por que) diz o outro? Estás seguro das tuas certezas? Serás capaz de questionar teus honrados princípios?

Aciona o mesmo raio laser ao avaliar o que vires. Aprecia amigos, simpatizantes, concorrentes e adversários com o mesmo critério -- embora desconfiemos de que a neutralidade é quimera situada para além das metafísicas.

Recorda-te de que tem espaços e limites. De que o fato de falar uma ou dez línguas não confere maior compreensão do que se passa nas cordas que sustentam os homens. 

Repara, com a maior honestidade de que fores capaz, em quantas ocasiões te valeste dos mesmos exemplos para te expressares, fosse com amigos, fosse com amores. 

Antes de falar em ética, rememora, feito exercício para uso particular, em quantos momentos sorriste com os comensais sem exatidão, nem espontaneidade? Será isso expressão da honestidade a toda prova? 

Não te esquece de cultivar os pequenos prazeres e de buscares maior coerência. Começa por uma xícara de café, percorre um sermão de Antônio Vieira e amplia a tua habilidade de escuta com o poderoso apelo interpretado por Shirley Manson.     

sábado, 9 de dezembro de 2017

Piano

1981. Tinha oito anos, quando meu pai anunciou que havia comprado um piano. Àquela altura, morávamos provisoriamente num apartamento simples do Jabaquara, em que nos espremíamos um tanto para transitar. Certo dia, o instrumento chegou. Era todo preto, com pinturas à mão. Belo timbre, tanto para os agudos quanto para os médios e graves, coisa rara de se ouvir. Já serviu como suporte para televisores, partituras e livros. Um dia, a ex-eposa, enfurecida, riscou fundo o tampo superior e a lateral com a chave. Certa feita, tocando com Karran, Fábio Di Dário e Fábio Pagan um jam com covers dos Doors, tive a ideia de botar um bilhete, assim: "Piano não é móvel", a fim de evitar que o pessoal depositasse copos ou garrafas sobre ele. Durante anos, os antigos colegas de banda brincaram com isso. "Ha, ha, ha: piano não é móvel. Ha, ha, ha". Piano Brasil, pintado de preto, modelo Luxo, 360 quilogramas* (*vim a sabê-lo apenas hoje). Há instantes, ele acabou de ser retirado do apartamento e seguiu para a oficina do Valmir Rodrigues da Silva. Lá receberá um belo trato nas madeiras, forro, cordas, cravelhas, pedais, teclas, e só deverá retornar em fevereiro. Será acolhido da melhor forma: presente que me dei de aniversário. É simbólico que ele parta agora. 2018 será o ano da saúde e da música. Claro, sem contar a literatura e os estudos informais sobre arquitetura e pintura. Piano não é móvel, mas mobiliza um bocado a gente.