terça-feira, 24 de julho de 2018

Tomada de Posição

Demorou um pouco, mas um dia a coisa começou a virar para o meu lado. Como havia saído cedo de casa, reaprendi a enxergar as mulheres de outros modos. A primeira mudança, portanto, começou com uma nova postura, vivida em três fases: 1) reconhecer as diferenças de tratamento; 2) solidarizar-me com as mulheres; 3) defender a igualdade entre os sexos (e, mais recentemente, entre os gêneros). Isso começou aos 17...
Um dia – era abril de 2000 –, estava numa assembleia de funcionários, quando um amigo (que fizera durante a graduação) revelou posicionamento oposto ao meu, quanto ao fato de entrarmos, ou não, em greve. Lembro-me de ter ficado incomodado com o tom que ele adotara, como se se tratasse de palavra de ordem, com direito ao estabelecimento de um “Comando de Greve” etc.
Ora, foi justamente ao me manifestar, irritado, contra a fala de meu amigo – secundada pela maioria dos presentes – que tomei a primeira grande lição daquele ano. Ele reiterou, com justa firmeza, que a assembleia era soberana; que estávamos em estado de greve e que as questões pontuais precisariam ser submetidas ao Comando.
Dito de outro modo, foi a partir de 2000 que a tal postura menos machistoide somou-se a um efetivo comportamento solidário em favor das chamadas “minorias”. Àquela altura, os movimentos na universidade refletiram coesão raras vezes vista. Alunos, Professores e Funcionários dividiam as assembleias numerosas, que aconteciam na maioria das unidades da USP.
Foi lá que tanto aprendi a desconfiar de incertos discursos; que passei a rever o que diz e rediz a mídia tradicional. Em suma, de que é preciso tomar um lado, especialmente em momentos de crise. Foi lá, também, que reconheci a importância de escutar os colegas de ofício, em seus problemas de seção (atendimento a alunos/clientes e professores) e suas questões pessoais.
Isso tudo para dizer que, não soube lidar com a reprimenda de meu amigo, durante aquela assembleia, realizada dias antes de a greve tomar corpo. Desde então, sou muito grato a ele (Helder Rossi), e também ao Marcelo Cardagi e ao Irineu (cujo sobrenome me escapa) e a outros tantos bons comparsas, que me fizeram abandonar o “porto seguro” em que julgava me encontrar – mais ou menos afeito aos princípios de papai e mamãe e aos amigos da escola jesuíta onde havia sido doutrinado para reproduzir mais do mesmo e sonhar com dinheiro, mulheres e Disney. Isso começou aos 27...
Quero acreditar que havia algo de “estranho” no aluno do Colégio da Companhia de Maria, onde estudei da pré-escola ao ensino médio: gostava de quase todos os meus professores (e, pretensiosamente, desculpava-os em suas aparentes “faltas”). Admirava-os em seu trabalho e saber. Lembro-me de como encarava a Matemática como diversão, enquanto resolvia os problemas e equações, no fundamental; de como a Geografia continha seu tanto de Geopolítica; gostava de saber as regras do “bom” Português (embora só tenha entendido melhor as lições de sintaxe ao lecionar); adorei entender Física (a muito custo) e de como me senti menor por não tê-las compreendido desde o princípio etc.
Então, apareceu Wanda Antunes, que nos ensinou a filosofar aos quinze anos. Lemos Albert Camus (A Peste) e George Orwell (1984) e o mundo do Outro se abriu através da literatura. Eu, que sempre fui tímido, senti que aquilo fazia máximo sentido. Era a primeira etapa do “Colegial”... Dois anos mais e contamos com a Professora Conceição, que lecionava História do Brasil. A primeira coisa que ela fez: questionar (e abandonar) o livro didático (Raymundo Campos) que utilizávamos. Se eu tivesse assistido ao filme Sociedade dos Poetas Mortos em 1989, teria estabelecido diálogo imediato com a postura de Conceição adotada no ano seguinte…
Salvo engano, vivo num país subserviente aos Estados Unidos da América, pelo menos desde a Primeira Constituição, dita republicana, promulgada em 1891. Nos anos seguintes, tornaríamo-nos “Estados Unidos do Brasil” – denominação mais tosca e indigna que poderia haver. A questão é que o alinhamento com os States nunca foi exatamente espontâneo.
Neste momento, a exemplo de tantos outros episódios vexaminosos de nossa historieta, é preciso tomar um lado. Mas, antes que venha me falar em “corrupção”, peço-lhe que fundamente o “seu” “argumento” em provas. E não se esqueça, é claro, de fazer autoexame, ao defender a legenda partidária em que julga votar “por contra própria” (e não por influência de pais, amigos “bem-sucedidos”, yotubers que nasceram ontem e jornalistas da tevê).
Uma dica: não há nada de “centro”, no que a mídia velhaca passou a chamar de “Centrão”, meu (minha) cara. Isso porque também não havia nada de “comunista”, nos governos de Lula e Dilma (eles, sim, governaram como centro). Não há nada de social-democracia na sigla dos tucanos. Desde quando “SD” combina com Privatização, Estado Mínimo e Regime de Exceção? 
Tomar Partido é decisão que se faz pelo Outro.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Acervo

Dia 6 de julho de 2018 d.C., em acordo com o Calendário de Papa Gregório, aquele. No último dia de atividades do semestre (uma banca de TCC), um sujeito deixa o apartamento, financiado, às 9h35. Pega o primeiro ônibus, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, às 9h45; desce na Avenida Rebouças e, às 10h35, toma o segundo coletivo (702U) -- que o levará até a Universidade. 
Como chegara uma hora antes do horário, desce no ponto em frente à Faculdade de História, segue até a Biblioteca Florestan Fernandes, onde supõe que devem continuar (em tempos de greve) as edições de Casa Velha -- novela de Machado de Assis descoberta na década de 1940 pela biógrafa e crítica Lúcia Miguel Pereira (nos sebos virtuais, a primeira edição, pela Martins, custa quase 3 mil reais. Está certo, a moeda desvalorizou; calculemos em dólar, uns 750, já que somos Neocolônia). 
Chegou. A porta está aberta. Dá para ver desde a calçada onde os carros encostam. O sujeito mostra o crachá de plástico, em troca da chave do cadeado. Guardou a pasta no armário. Carrega carteira, celular. Confirma a localização dos exemplares da novela no acervo (869.9341MAcv). 
Folheia alguns deles. São 10h20. Terá tempo de tomar café, antes de encontrar os colegas. Satisfeito e sorridente, empunha os livros -- que também constituem armas contra o mundo egótico, venenoso e excludente de Temer et caterva. 
Agora falta pouco: está em frente ao balcão de atendimento. Uma das funcionárias entretém-se com um jogo no microcomputador. Seu colega da direita, visivelmente contrariado, olha ranzinza para a moça e, sem disfarçar a má vontade, faz gesto para o sujeito se aproximar. O indivíduo exibe os dois exemplares e os entrega ao rapaz com a sua carteira de identificação -- que comprova seu vínculo como docente da maior Universidade (dizem) da América Latina. 
Mas, por aqui, também, o professor já não vale tanto. O atendente, ainda de má vontade, em lugar de solicitar gentilmente que o sujeito digite a "senha de usuário", dirige-lhe a palavra em tom raivoso: "-Senha!". O docente já digitou a senha. Neste instante, o rapaz baixa um dos livros, mas sustenta o outro no ar. Parece procurar por algo, enquanto balança a cabeça irritado. Decreta, fatalmente: "está sem ficha de catálogo". Entre dois "hãs" daquele que carrega os livros, recomenda que se dirija à seção em frente ("Atendimento ao Usuário"), para que se efetive o procedimento de cadastrar o livro para empréstimo.
O sujeito vai até a seção. Estranha ter sido encaminhado para o recinto, sendo que não havia viva alma por lá. Lança olhares para uma outra funcionária, mais solícita. Ela pergunta o que deseja. Ele responde. Ela ensina: "Quem faz isso é o Bibliotecário". Hum. "Mas ele saiu para tomar café". Retruca: talvez seja mais fácil procurar por outro exemplar. Silêncio. 
O usuário torna outra vez. O que há de mais em subir de novo até o terceiro pavimento, não é mesmo? Na biblioteca, além dele (é dia de jogo da seleção), deve haver dois usuários. Talvez deem trabalho demais, o que explicaria não haver possibilidade de os atendentes não atenderem. O sujeito pensa: haveria possibilidade de um dos colegas contatar o bibliotecário que tomava café? Melhor não estender a reflexão, embora tenha por ofício "pesquisar e falar" (como disse Roland Barthes, em Aula).
A caminho da seção machadiana do acervo, recorda-se de ter visto outros exemplares da primeira edição de Casa Velha, em volume. Reencontra. Compara-o com aquele que não poderá retirar: nele consta um segundo código de barras, onde se lê "Dedalus" (no outro, só havia o número de "Tombo"). 
Desce novamente as escadas, pensando quanto vale um professor na universidade. Não deve valer muito, ainda mais vestido como ele, de calça, camisa e sapato com palmilha comfort. Agora, era questão de honra: queria mostrar ao atendente inicial que a má vontade dele fizera-o ter mais trabalho para levar um exemplar emprestado. Mas, como já se sabe, há outros dois funcionários, além daquele. Então, um aparentemente mais animado, convida-lhe: "Faz a volta". 
Passa pelo detector (não apita). Retira a pasta do armário (número  95). Deposita a chave na caixa de madeira, sob os cuidados de dois funcionários (estes, terceirizados). A fome havia aumentado: desce o sujeito até a lanchonete "Tia Bia", desvia das abelhas enquanto sorve café com leite e um enroladinho. 
Houvera um tempo, quando ele mesmo fora funcionário da maior universidade da América Latina, em que ele defendera a si mesmo e aos demais colegas, por diagnosticar que a terceirização dos servidores era prejudicial às relações (sem vínculo qualquer) na universidade. 
Agora, epifania!, mais uma vez, repensa: "E quem disse que ter vínculo funcional assegura o reconhecimento do outro?".