domingo, 12 de agosto de 2018

Dia Dele

Nascido em fevereiro de 1973, meses depois os pais tiveram que escutar o médico dizer que a expectativa de vida do filho era de 3, 4 anos. A razão: C.I.V. (Comunicação Intraventricular). 
Por sorte, já haviam sido realizadas cirurgias corretivas, no Brasil, àquela altura. Deste modo, com um ano e sete meses, o primogênito foi operado pela equipe do Dr. Adib Jatene, no Hospital da Beneficência Portuguesa. 
A mãe ainda relembra quão difícil era se despedir do pequenino, a acenar do colo da enfermeira, a cada vez que os pais o visitavam no hospital, durante os trinta dias de recuperação, após a cirurgia. 
Sei que ele cresceu. E que, durante a infância, respondia meio tímida, meio heroicamente -- quando perguntavam os amigos: "tem cicatriz? deixa ver" -- Sim, sim, e mostrava o tronco afetando naturalidade de quem superou a morte.
Quando o adolescente foi pai, aos dezenove, pensou que a filha também representava a continuidade de sua mirrada dinastia. Coisa para mais se gabar, ora se não! 
Talvez por ser algo congênito, o fato é que o garoto era mais emotivo que as crianças com que brincava. Certa feita, o irmão menor desenhou um menino num pedacico de papel que o pai trouxera. O irmão maior tinha oito anos. Ficou encantando com o amiguinho em contorno azul no papel. Mas o irmão menor, sem perceber a importância que o maior dera, rasgou o papelzinho. Então, o menino grande chorou, chorou, chorou; e seu irmão, reparando a gravidade da situação, desenhou dezenas de bonecos em novos papeluchos. Não serviam: ele queria aquele. Deveria ter alguma feição que o aproximara demasiado da figura em celuloide. 
Coração em que o sangue venoso se mistura ao arterial teria maior pretensão de abrangência do mundo? Os azuis e os vermelhos? Os ricos e os pobres? Os que vencem e os que restam? Os que fogem aos pobres e os que deles se aproximam? As mulheres e os homens? Consciência de sua pequenez no mundo? E de como é necessário ser grande para causas alheias? 
Certo dia, voltava da universidade. Depara com várias ligações da filha, no celular. Não havia almoçado, quando telefonou. Não tinha mais pai: o pai dormira e lá permanecera. Percebeu que ser pai sem pai era responsabilidade final e maior: perder o pai da gente implica virarmos pai em dobro, pai no total.
Onze meses depois, foi aprovado em concurso na universidade onde o pai estivera tantas vezes, para dar-lhe uma carona. Enviou mensagens para amigos e antigos colegas da instituição. Desde então, imagina o que o pai teria dito, como teria reagido: "Ah, oui?!", depois "- Trés bien!", decerto. Passaria a mão grosseiramente sobre a sua cabeça, com sorrisão, proclamando: "Il faut fêter
Talvez já estivesse com uma latinha de cerveja na mão, a chave do carro pendurada no bolso, os cabelos em desalinho e os olhos grandes, feito janela do universo, a repetir o rifão que o menino mais velho e mais novo escutaram desde a infância: "Tu mérite, tu mérite". Era isso o que o pai sempre dizia, quando trazia uma lembrança da rua ou atendia ao capricho do filho mimado, que vivia a pedir carrinhos de ferro, gibis e revistas, durante o almoço.
Mais tarde, foi a época de almoçar em locais de predileção do pai. Pequeno pedido para tamanho homem, sempre disposto e generoso. 
Então percebeu: domingo era, definitivo, dia do pai. 

  

  

terça-feira, 7 de agosto de 2018

TCC

Trabalho de Conclusão de Curso (ou TGI, conforme denominação de alguns cursos de graduação): para grande parte dos alunos, um misto de terror e incógnita. Isso porque o tema virou uma espécie de tabu, sem lugar para maior discussão na sala de aula. 
Muitos de nós sequer contávamos com uma disciplina específica sobre isso. Por detrás do nome que recebem (em geral, Metodologia Científica), há um misto de vaguidão. Como pretendem servir para temas bastante diversos, parte dos alunos supõe que se trate de conteúdo de menor relevância. "Disciplina-acessório", como já escutei alguém dizer.
Sob esse aspecto, cabe ao professor (e eventual orientador) estimular que seus estudantes exponham os temas com que desejariam trabalhar, o método que utilizarão, o que motiva a realização da pesquisa e os objetivos em movimento. Reservar um espaço no cronograma para discutir aspectos relacionados ao famigerado TCC, a meu ver, é a melhor forma de aproximar o aluno/pesquisador da tarefa que completa a sua formação.
Em meu caso, continuo a ter a sorte de ser escolhido por alunos inteligentes, engajados para além da individualidade e interessados em propor soluções para impasses. Já houve instituições em que a orientação dependia do crivo da coordenação do curso e, por saberem de minhas convicções (e da liberdade com que os orientandos conduziam suas pequisas), devo ter perdido a oportunidade de conviver com maior número de pessoas tão ou mais interessantes.
Diferentemente do que acontece nos programas atrelados a programas de financiamento, cujas regras são bem mais estritas, o TCC não deveria obedecer aos caprichos do mercado (ao menos, não precisa, no curso onde estou desde 2014). Todos os orientandos que tive o privilégio de "orientar" sabem que li e anotei o que escreveram, indiquei leituras (inclusive filmes, jogos e outros artefatos culturais), modos de estruturar o trabalho, indicação de banca etc, sem faltar palavras de incentivo (e ressalva), quando necessário. 
Há duas coisas em comum na relação orientador/orientando. Salvo raríssimas exceções, dialoguei com pessoas quase sempre sensíveis e inteligentes, incomodadas com determinados elementos de nosso mundinho planificado, afeito ao lugar-comum. Outro traço comum: todos, sem exceção, praticamente despareceram e os diálogos, quando há, são realizados no ciber espaço.
Talvez isso "explique" a postura de alguns colegas de ofício, que tratam o aluno com distanciamento. Às vezes penso que não se trata apenas de arrogância (por parte do orientador), mas de insegurança: para que desperdiçar tamanha energia, gastar os olhos lendo argumentos sem consistência, tirar dezenas de livros das estantes etc, para ajudar um sujeito que, passado o dia da banca, nunca mais fará contato conosco? Creio que é assim que eles se sentem e pensam. 
Comigo as coisas são diferentes. Invisto tempo, conversa, cafés, livros em forma de presente... Não obedeço ao provérbio de que é preciso olhar a quem se faz o bem. Subversão? Orientar ensina muitas coisas, inclusive a vibrar muito com as conquistas dos alunos, sem tomar para si o trabalho deles (especialmente artigos em revistas, resumos em eventos etc). 
Evidentemente, corre-se o risco de eles não reconhecerem o tudo que fizermos e sequer destinarem uma ou duas linhas na lista de "Agradecimentos". Ainda assim, vale a pena. Para mim importa muito mais a qualidade que tivemos, durante o tempo de convívio que os "produtos" porventura gerados. 
Antes dedicar-se ao máximo, sem hora para responder a mensagens (inclusive de whatsApp), que afetar falsa segurança de alguns "mestres" afeitos à reprodução estrita da ABNT e às leis de um mundo sem lugar para muita coisa além do dinheiro e o pseudovalor do lucro monetário.
Creio que meus alunos fizeram o que mais quiseram. Nosso papel é auxiliá-los a aprimorar os meios de realizar a tarefa de melhor dizer. Se não, corremos o risco de converter a sigla (TCC) em Trabalho de Castração do Curso.