domingo, 30 de setembro de 2018

Reencontro com Theodor Adorno

Desde que me tornei professor, domingo tem sido dia de preparar aula. Amanhã, ao discorrer sobre História do Cerco de Lisboa (publicado por José Saramago em 1989) discutirei "Ensaio como Forma", de Theodor Adorno. 
Supondo que os estudantes façam um esforço para ler e anotar o capítulo, possivelmente repararão que se trata de um meta-ensaio, já que Adorno recorre ao gênero ensaístico para melhor dizer sobre o objeto de que (não) trata.
Salvo engano, Adorno desmontou a ideia de pureza que se atribuía a determinados gêneros, supostamente brotados da modalidade praticada na academia. Ele desconfiava que a pretensão da ciência à totalidade e o caráter supostamente estável dos conceitos tenham sido perturbados pela forma instável do ensaio -- modalidade que questiona a si mesma e deixa perguntas em aberto, especialmente para o leitor sensível e atento.
Subestimado pelos cientistas "do particular", por se tratar de uma forma, por assim dizer, flutuante, o ensaio também não ocupa lugar confortável entre os sujeitos que desprezam a academia e veem nele uma soma de abstrações que guardam pouco ou nenhum vínculo com a "vida real". 
Tudo isso, é claro, pode ser relacionado com o romance de José, aquele: se a escrita da história estiver em falta com a verdade absoluta, decerto é na linguagem que está o seu segredo. O ensaio, sugeria Adorno, era irmão da literatura. Creio que o mesmo se possa dizer sobre a superação dos dogmas por intermédio da história. E da literatura.
Em José Saramago, essa síntese entre o registro e a sua sua superação ocorreu diversas vezes. Ele se valia da forma ensaística para questionar e driblar o método imposto pelos manuais de história. Algo que deveria nos colocar para pensar, desde que que avistavamos o título dado ao romance.
Quase nada de "História", se a considerássemos como sucessão de eventos, com vistas a enaltecer pequenas-grandes decisões. É que História do Cerco de Lisboa é um ensaio que faz da negação do texto plataforma para repensar o protagonismo dos "grandes", segundo a historiografia oficial.
Sob essa perspectiva, é romance às apalpadelas, que desestabiliza o lugar da literatura, em si, e de certos manuais de história.
Raimundo Benvindo da Siva é sujeito de hábitos simples e ousadia. Para começar, desconfia do manual que tem por tarefa revisar. Em seguida, acrescenta um "não" a um evento que, em tese, levara Portugal a empenhar novos métodos contra os mouros.
Talvez não seja ousadia dizer que o ensaio, feito seu romance, propõe assertivas a partir de negativas.