terça-feira, 20 de novembro de 2018

Brevíssima Dissertação sobre a Escada

[Ao som de Echo and the Bunnymen]

Que me conste, raros terão sido os intrépidos a tecer considerações sobre a escada. Para fazê-lo, pretendo cumprir alguns preceitos da melhor retórica e recorrer ao método expositivo mais cartesiano possível.
Especificarei a que espécie de escada me refiro. Direi do que ela se compõe. Aludirei a episódios literários em que ela cumpre papel relevante. Inventariarei lembranças. Sugerirei que ações ela antecipa, prolonga e permite.
Definição. Escada – substantivo feminino (em língua portuguesa), do latim, scalata. Conjunto de degraus que nos leva ou traz de um patamar, nível ou andar a outro. O étimo nos remete a um verbo bem conhecido: escalar (quase ninguém pensa no antônimo: descer, retroceder são ações interditadas em nossa sociedade pós-moderna, pós-racional e tudo menos pós-ideológica).
Delimitação. Aqui, refiro-me não à escada portátil, dessas de ferro, madeira ou alumínio; mas às escadas que, somadas (e quando altivas) chamam-se escadaria. Escondem-se por detrás das saídas de emergência de residências verticalizadas, centros comerciais, edifícios que se esqueceram de oferecer mais velocidade e vaga nos elevadores (repare o leitor em como não admitimos o sentido contrário do verbo “elevar”; nem mesmo quem, pelo elevador, desce).
Estrutura. Diversos são os materiais de que se compõe a escada: madeira, metal, alvenaria. Alteram-se as formas e cores. Mudam-se os ruídos que os pés (ou as mãos, caso plante bananeiras durante o trajeto) fazem. A de metal, em notas brilhantes. A de madeira, em tonalidade seca, abreviada. A de alvenaria, a depender do revestimento (borracha, piso frio ou carpete de madeira), a calar a voz e amplificar a dicção do solado (Toc-toc; Toc-toc – quase todo mundo acentua o andar num dos pés).
Na literatura, ela pode desempenhar função não desprovida de importância. Penso na cena inicial de O Primo Basílio, em que Jorge pergunta a Luísa se já não desceria, para atenderem ao compromisso social. Mulher nas alturas. Homem no piso inferior. Céu e inferno? Céu e terra? Idealização feminina? Só se for do avesso: bem sabemos que a instituição casamento será tripudiada pelo narrador em terceira pessoa e a esposa descerá, descerá, descerá, até o fim da trama.
Esaú e Jacó, em que o Custódio vai em busca de seu ilustre vizinho de frente, o Conselheiro Aires. O criado do distinto sujeito está no patamar; o pequeno comerciante está no pó (ou na lama) da rua, único elemento em comum. Entre eles, a escada, a reforçar a assimetria social, as posições que um e outro ocupam na rígida hierarquia cortesã – arremedo das modas importadas da França. Para além do patamar, onde está o criado, outro nível (o doméstico) se desenha: o conselheiro Marcondes Aires fuma, devagarinho, o seu charuto da melhor procedência.
Performance. A escada que alonga o vestido (poderosa metonímia, incertos momentos). O som de quem apressa os passos a subir ou os retarda, ao descer. No aeroporto, o corrimão é um monstro com centenas de olhos de metal. Frios e redondos, decorosos em relação às formas arrendondadas – lá está a sanca em borda e reborda, ao alto, cheia de lâmpadas de variado tamanho. Não convém acelerar o andar, o andor, enquanto se ascende ou descende, ainda que estejamos prestes a nos despedir ou na iminência de reencontrar.
Considerações Finais. Como se disse, escada sugere nível ou desnível, local de transição (entre andares, entre estantes, entre seções da loja de departamento, entre balcão e mezanino etc). Ela pode nos ensinar a refrear emoções e passos, especialmente quando já avistamos quem mais quiséramos ver. Ainda que nos percebamos diminutos, dado o caráter apassionador do que se sente, por instantes a escada nos eleva para além de dois: visão onírica, como se, durante quinze degraus e meio minuto, elevados ao terceiro patamar, nível ou esfera, detivéssemos algum controle e rara razão sobre a (i)lógica dos afetos.

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