domingo, 20 de janeiro de 2019

Arte de Conversar

"[...] aquele que fala, se deseja fazê-lo de modo que seja amado, e que seja tido por boa companhia, não deve pensar senão, pelo menos no que depender dele, em tornar felizes aqueles que o escutam" (Antoine Gombaud)*


Escute-me, por obséquio. 
A senhora, o senhor internauta já terão passado por situação parecida. Foi lá rever aquela(e) amiga(o) com quem, por alguma razão aparentemente inexplicável, não estabelecia contato pessoal há meses, às vezes, anos. 
Combina, recombina, cancela compromissos, afinal, cultivar amizades é tão importante quanto estudar e trabalhar etc. Agendou-se o reencontro!
Marcou o café, a cerveja, a balada, tanto faz. O diálogo começa animado: "puxa, ah quanto tempo, hein?" ou o imprescindível "pois é! quem é vivo sempre aparece!" e outras celebrações desse quilate. Eis que, decorridos uns doze ou treze minutos, o que prometia ser uma conversa a celebrar a amizade transforma-se em monólogo de ostentação de saberes, poderes e discordâncias.
Há muitos anos, li em algum lugar que esse tipo de relacionamento poderia ser classificado como "vampirismo". Os entendidos queriam dizer que existem criaturas especializadas em monopolizar o discurso, enquanto ele durar. 
Em geral, são pessoas que, devido a alguma insegurança ou desencaixe, precisam rafirmar sua autoridade através de uma fala ininterrupta em que fingem saber de tudo e que, de tempos em tempos, incomodadas com a nossa singela interrupção, de doze ou treze segundos, reassumem o tema (que só interessa a elas), explicitando o fato de terem deixado algo para trás, por responsabilidade nossa: "Retomando o que EU dizia"...
É mais ou menos nesse instante que você se dá conta de que o hiato de tempo não era gratuito. Agora aquela ficha caiu: "sim, sim; agora me recordo por que fazia um ano e dois meses que não encontrava Fulano".
Poderíamos sugerir que tais criaturas visitassem um(a) terapeuta, para conseguirem entender por que procedem de forma tão autocentrada. Outra opção seria sugerir a consulta às pesquisas em torno dos "textos orais", coordenadas por Dino Preti e companhia, especialmente o que se refere aos "turnos de fala". Também seria oportuno recomendar a leitura das Artes de Conversação, que circularam na Europa entre os séculos XVI e XVIII. Na falta desses materiais, lembre a lição de Paulo Freire, destinada especialmente aos Educadores: melhor fala quem melhor ouve.
Mas, pensando melhor, e a julgar pelos traços de narcisismo e autoritarismo que transparecem na fala dessas criaturas, serão sugestões inúteis. O preferível, mesmo, será conviver com pessoas que já aprenderam que dialogar não tem o prefixo "di" por questão de enfeite, pois o assunto não se restringe ao plano do significante.


*"Do Espírito da Conversação". In: PÉCORA, Alcir (org.). A Arte de Conversar: Morellet e Outros. Trad. Edmir Missio; Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 5.