quinta-feira, 18 de abril de 2019

Carta aos Orientandos do Futuro

Planeta Terra, 18 de abril de 2019 d.C.


Estimadas(os) Pesquisadoras(es), por ora a circular entre a sala de aula, o corredor, o bandejão, o cepê, o cinusp e as bibliotecas,

Estamos acostumados, na universidade, ou a moldar o trabalho que vocês têm em vista ou a acolher, sem restrições, aquilo que mais desejam estudar. Sempre fui da segunda turma, desde os tempos em que trabalhei na Hotec, na Metodista e na Fatec. Para isso, recorria e recorro a uma das lições do admirável Umberto Eco: estude o que mais deseja; não o que mais convém. Sabemos que, no país do corte de bolsas e da precarização do professor/pesquisador, nem sempre o que mais queremos assegura bolsa etc, o que talvez explique o fato de eu ter convivido com alunas(os) que desenvolviam trabalho em torno de temas que não eram a sua primeira opção. Por isso, e apesar das dificuldades, insisto: estudem o que mais lhe dá prazer; ou, em termos menos eufóricos, o que mais desperta curiosidade; o que as/os movem para além das palavras ordinárias, das fakenews, do senso comum, dos dogmatismos, do egoísmo que começa em casa e implica desprezar os outros. E não se esqueça: a solidariedade é a prova dos nove, parodiando Oswald.

Desta vez, porém, queria lhes dizer o que me encanta(ria) mais, quando no papel de orientador -- seja de TCCs, seja de ICs, seja de pesquisas em Pós-Graduação: 1. qualquer obra, autor(a) ou tema relacionado ao período "colonial" da "história do Brasil"; 2. qualquer escritor(a) do século XIX que permitisse ampliar o cânone cada vez mais restrito, em torno de Machado; 3. poetas do período "pré-modernista", não só os de São Paulo, Minas ou Rio; 4. Drummond; 5. João Cabral; 6. Leminski; 7. de Dalton Trevisan a Patrícia Melo; 8. José Saramago e Valter Hugo Mãe; 9. Lídia Jorge (por enquanto, A costa dos murmúrios); 10. Poetas surrealistas, em diálogo com Marx, Freud e a música anti-clássica (embora erudita); 11. Estética do romance policial (em particular, Agatha Christie); 12. tratados de retórica, poética, etiqueta e cortesania; 13. teorias sobre a história (em voga desde o século XIX, na Alemanha, de Gervinus a Koselleck); 14. reedições de "clássicos" esquecidos (encontráveis em arquivos físicos ou hemerotecas); 15. re-traduções de obras ainda conhecidas; 16. ensaios "escolares" de Lacan (p. ex. "Os nomes do pai" ou "O mito individual do neurótico"); 17. idem, em relação a Roland Barthes (quase tudo o que ele escreveu) e Michel Foucault ("A ordem do discurso", "História da Loucura", "Vigiar e Punir", "Os Anormais" e "As palavras e as coisas") ; 18. proposição de métodos, p. ex., um TCC (ou Mestrado) que ensinasse a elaborar TCCs (ou Mestrados); 19. história da educação brasileira, desde os Colégios Jesuítas até o Colégio Pedro II e, claro, o Largo São Franciso; 20. O pensamento de Herbert Marcuse; 21. O papel da Escola de Frankfurt; 22. A Estética da Recepção, segundo Jauss, Iser (e também Brunel); 23. O estudo sobre simbologias, emblemas, cores, formas, sons durante o chamado Antigo Regime; 24. Os rapapés da corte francesa e portuguesa; 25. O teor das teses resultantes do Concílio de Trento (1545-1563), contrarreformista; 26. A estética do romance distópico; 27. A educação libertária versus o dogmatismo (como se vê em Paulo Freire e Emília Ferreiro); 28. A construção de Deus (e de Lúcifer), desde Roma, em sua fase decadente; 29. A democracia como farsa, segundo os EUA; 30. Revisão das visões sobre o Brasil, de Gilberto Freyre a Roberto da Matta; 31. Adaptação de obras "clássicas" para os quadrinhos e/ou o cinema.

Não sei se a lista ajuda a pensar em algo; mas me ocorreu sugerir esses itens, como pistas de que tenho prazer em orientar qualquer trabalho, sob duas condições: desejo do pesquisador em descobrir/aprender/compartilhar (humildade) e honestidade itelecutal (ou seja, emular; mas não plagiar).

Muy humildemente, despeço-me.

Jean Pierre Chauvin.